Sábado, 30.08.08

                                                                                             

                                                  Quarto com vista para a cidade

 

Este Verão mudei de década de vida, e achei que Florença era um bom sítio para celebrar tal mutação etária com a mulher da minh'alma. Nunca lá tinha ido.

Já andei por sítios que não lembram ao diabo. A uns não gostei de ir, mas gosto de ter ido. Florença era daqueles a que eu gostei de não ter ido antes, e que tinha guardado como uma garrafa de vinho, alimentando-me do gozo que teria ao bebê-la. Há poucas coisas mais invejáveis do que os olhos de um neófito.

Ir a uma cidade onde se concentra um quinto de todos os tesouros artísticos do mundo, e onde a cada esquina se tropeça com um, é como ir a um banquete. Acabamos por perder o apetite e não comer nem um décimo das coisas que gostaríamos. Estar num sítio é deixar de estar noutro, e nem uma vida inteira chegaria para ver tudo. Stendhal chegou aqui e, perante o estendal de arte (não resisti a esta…) ia-lhe dando uma coisinha má, tipificando uma síndrome que até já está cientificamente estudada. Convenhamos que é uma doença chiquérrima: "Querida, o médico proibiu-me Van Goghs, Ticianos e tudo quanto seja impressionista. Agora só posso ver umas coisinhas abstractas, uma aguarelas inglesas e um pré-rafaelita de vez em quando. Rubens, por exemplo, nem pensar, dá-me logo palpitações."

Como no resto do país, muitos dos tesouros de Florença estão ocasionalmente escondidos por andaimes e tapumes. Manter tudo aquilo em bom estado é um trabalho de Sísifo, e quando se acabou de recuperar tudo, há que começar de novo. A Itália é um estaleiro permanente. Felizmente que neste momento só as traseiras da catedral estão a ser limpas. Desembocando do Borgo S. Lorenzo, vindo dos lados do mercado, topei com a incomparável fachada do Duomo a brilhar e soltei um grito da alma: “Caralhos me fodam, que coisa mailinda.” Não sou o Stendhal.

Quando Deus distribuiu a beleza pela Terra, grande parte foi parar a Itália. Se esta desaparecesse, o mundo ficava muito mais feio e triste. E não falo só da arte – falo da terra, das pessoas e do que elas continuam a fazer no dia a dia. A empregada do tasco põe-nos à frente uma choruda bisteca fiorentina e abre as mãos em adoração: “Guardi comme é bella!”. Só neste país é que uma costeleta é servida com a reverência prestada às obras-primas.

 




9 comentários:
De FuckItAll a 30 de Agosto de 2008 às 00:37
Falta-te o desabafo assassino do Ruben A., que dizia que "Florença aos domingos é como Gondomar com estátuas".

Bem me parecia, plas minhas contas, que tinhas mudado de década. Re-parabéns, que seja boa esta nova - começas bem, a passear só por bons sítios...


De Ana Vidal a 30 de Agosto de 2008 às 01:19
Infelizmente já não é só ao domingo...

Mas Florença vale a pena mesmo quando Gondomar a invade, com o major Valentim e tudo. Florença resiste a isso e a muito mais. Como toda a Itália, aliás, que é o país do bom gosto natural.

Vou levar-lhe o texto, espero que não se importe.


De Mouro da Linha a 30 de Agosto de 2008 às 02:42
Aos poetas nada se recusa, Ana.


De mamemimomu a 30 de Agosto de 2008 às 10:30
Uma frase só : Conseguiste que eu sentisse a falta dos teus textos , faço um bocadinho de férias quando leio o que escreves



De FuckItAll a 30 de Agosto de 2008 às 13:37
sempre estimado pelo belo sexo, o nosso Mouro balcânico...


De Teresinha a 30 de Agosto de 2008 às 20:16
Cá para mim é mais balsâmico, limpa-me o espírito


De mamemimomu a 1 de Setembro de 2008 às 08:42
Ler um texto do Mouro é viajar um bocadinho , com direito a ver tudo com pormenor , a sentir , a gozar cada momento ...


De FuckItAll a 1 de Setembro de 2008 às 13:07
Ora essa, meninas, eu não disse que ele não merecia.


De mamemimomu a 1 de Setembro de 2008 às 16:17


Comentar post