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Womenage a Trois

Women's True Banal Stories - womenageatrois@gmail.com

Julho 25, 2006

Shyznogud


Não é originalidade nenhuma pensar nesta canção para ilustrar o post de há pouco. Aliás, o "maldita gi" era óbvio mas ainda há mais óbvio, caso da crónica de 14 de Julho de João Miguel Tavares no DN:

Paulinho e Gisberta

O Paulinho foi meu colega de turma na década de 80, no ciclo e no liceu de Portalegre. Tinha uma particularidade: era bastante ostensivo na exibição da sua homossexualidade, com trejeitos efeminados e cadernos da escola com fotografias dos Wham e iloveyous dedicados a George Michael. Durante os quatro anos em que estudámos juntos, não deve ter havido dia em que não tenha visto o Paulinho - o diminutivo já o diminuía - ser insultado, gozado, pontapeado, esbofeteado. Nas aulas de ginástica, ele aparecia sempre vestido de fato de treino e no final abalava para casa a pingar, porque não se atrevia a tomar banho no balneário juntamente com os outros rapazes. Nessa selva de dúvidas e hormonas que é a entrada na adolescência, o Paulinho não era uma pessoa. Era um paneleiro, uma bicha que existia para ser espancada. Identidade não tinha - o mundo brutal que o cercava reduzia tudo o que ele era a uma opção sexual.

Tenho-me lembrado muito dele durante o julgamento de Gisberta, que está a decorrer no Porto. A expressão que servia de grito de guerra dos miúdos que, num momento de tédio, a espancaram até à morte - "vamos dar lenha ao Gi" - remete para a mesma recusa de humanidade, para a mesma incapacidade de assimilar a diferença. Dizer, como foi dito por uma "fonte judicial", que "são miúdos" e que aquilo foi apenas "uma brincadeira que correu mal" é um insulto e uma dupla mentira: nem as crianças são um albergue de inocência e puras intenções, nem os adultos têm o direito de virar a cara a tamanha barbaridade. Tudo neste caso está a ser demasiado consensual: o Ministério Público, a defesa, as crianças, alegremente misturados numa comovente concordância. Já em 1978, na Ópera do Malandro, Chico Buarque contava a história de Geni, "rainha das loucas e dos lazarentos": "Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá para qualquer um/ Maldita Geni." Geni, Paulinho, Gisberta, o mesmo fio une-os numa rede de pre- conceitos. Velha como o mundo e que ninguém parece ter forças para romper.

Adenda de dia 28 de Julho. Um texto da Ana Sá Lopes (que também faz parte do Glória Fácil e a quem ninguém deve perdoar a morte da Vanessa anunciada há uns dias) no DN de hoje:

Um assassinato que seja seu

Se alguma coisa cabe direitinho no conceito de justiça popular é o Ministério Público ter abandonado a acusação de "tentativa de homicídio", no julgamento relativo à morte da transexual Gisberta .

A "justiça popular", que costumamos associar às turbas desejosas de linchar um réu, produz-se aqui no sentido inverso - desde o início do processo que se tinha percebido estar em curso a organização de uma "turba" para proteger os réus. As declarações de responsáveis das Oficinas de São José, minimizando o comportamento dos menores que atiraram para o poço a transexual, eram um mais do que claro indício do "perdão iminente".

Os mortos valem o que valem consoante a cultura e a circunstância. Gisberta não é um morto que seja "nosso". As vítimas do nosso tempo português são menores objecto de abuso sexual, não prostitutas vítimas de menores (ainda por cima transexuais, "coisas", e não pessoas, "esquisitas"). Logo, aquele homicídio não foi "nosso". Não é da nossa "cultura" - a nossa cultura é aquela descrita na Geni e o Zepelim, de Chico Buarque - tratava-se precisamente de uma transexual, de quem "toda a cidade" gritava "joga pedra na Geni/ joga bosta na Geni/ ela é boa para apanhar/ ela é boa de cuspir/ela dá pra qualquer um/maldita Geni".

Maldita Gisberta. O terreno estava fértil, a complacência pronta a ser servida, nenhuma comoção popular com a vítima (ainda por cima, além de prostituta e transexual, estrangeira), toda a "relativização" pronta a ser dedicada aos menores ou às "crianças". As "crianças" tinham, enfim, para a nossa cultura, a melhor das defesas: numa instituição dirigida pela Igreja Católica "não há rapazes maus". Foi, de resto, mais ou menos a isso que se referiram os responsáveis das Oficinas de São José quando o caso (aqui nunca se poderá usar a palavra escândalo, porque não houve escândalo nenhum) rebentou.

No auge do processo Casa Pia, e da justiça popular para a condenação dos réus que se lhe seguiu, alguém perguntou: "Mas não é o homicídio o mais aberrante dos crimes?" Olhando um processo e outro, é evidente que só há uma resposta: "Depende."

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