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Botas, pois claro. De que é que estavam à espera? Um
Botas à medida do país, pequenino. Um
Botinhas, portanto. O nosso
Caio Júlio César Augusto Germânico. Sem loucuras nem assassinatos, sem crueldades nem extravagâncias. Bem composto e aprumado e de brandos costumes como manda o
trademark luso.
Ontem vi, pela primeira vez, o célebre programa da RTP sobre "Os Grandes Portugueses". Quis o acaso que fosse a sessão final. Ao longo de várias horas, oscilei entre o riso e o enjôo com o que ia sendo dito, até chegar ao clímax final, previsível, da vitória de quem se sabe. Hoje o país regurgita reflexões e debates sobre o assunto. Não foi para isso que aqui vim, hoje.
Impressionou-me a leveza daquilo. Ultrapassou as minhas expectativas. Cada um dos "Dez" foi avaliado, segundo uma "sondagem", em parâmetros: bravura, compaixão, liderança, legado, etc. Pontuar a "bravura" de Aristides Sousa Mendes e compará-la à de Fernando Pessoa ou classificar a "liderança" de D. João II em paralelo com a de Luís de Camões deixou-me de boca aberta. De facto, tudo é possível em televisão. Aprendi, desde o banco da escola, a não somar "alhos com bugalhos". Não dava nada, dizia a minha professora. Estava enganada, a pobre senhora que, se não tivesse já falecido, veria um dos pilares da sua pedagogia a desabar ao vivo e em directo por uma plateia de notáveis.
O espectáculo foi ridículo e deprimente. Puxo aqui da primeira costela, porque para a segunda já basta o resultado final. Paulo Portas (que não disse "ouça!" nem uma única vez, preferindo dirigir-se directamente à pivot "Maria Elisa!") lá debitou a sua prosa mal aprendida sobre D. João II e a sua obsessão pelo Tratado de Tordesilhas, como se este tivesse sido, sei lá, o Tratado de Roma ou assim. Pena é que tivesse errado nas "léguas" da célebre linha de divisão do Atlântico, 270 em vez das 370 do Tratado. Bof! Qué quisso importa?
Ana Gomes acha que percebe de tudo, até da biografia de Vasco da Gama, imagine-se: um "grande capitão", de "um humanismo extraordinário", disse. Aqui freezei. Vá lá que confessou que da biografia do navegador "pouco se sabe". Podia ter acrescentado "falo por mim", só lhe tinha ficado bem. Qual o seu defeito, segundo a dita senhora? Insensível, vingativo, mau diplomata, pensei eu. Não: o "amor à sua terra", foi a brilhante conclusão da eurodeputada. Clara Ferreira Alves, com o seu ar costumeiro, defendeu o Pessoa, como lhe competia. Mas lá largou a perolazinha da praxe ao afirmar que "nesse tempo [de Camões] as mulheres não tinham direitos".
Odete Santos foi a estrela da noite. Mau-feitio, falta de humor, rabugice incorrigível. No fim, entre má-educação mal-disposta, saltou da cadeira e clamou que "é proibida propaganda fascista na televisão". Quando se perde a votos, invoca-se a lei. Ah! Defeito de Álvaro Cunhal, segundo a eminente deputada? "A sua modéstia", pois claro. Com defeitos destes, quem precisa de qualidades?
Medalha de ouro para o senhor que apresentava os gráficos e ia debitando os resultados da tal "sondagem". Não sei o nome dele, mas merecia ser o 11º Grande Português. Desde dizer que Aristides "salvou os judeus da 2ª Guerra Mundial" (presumi, portanto, que tinham sido todos mobilizados para a tropa e que o diplomata português meteu uma cunha para os declarar inaptos) e que o Infante D. Henrique foi um "grande matemático, que aplicou o astrolábio à navegação e inventou as cartas planas" (terá sido diplomado pela Escola de Sagres, pensei, e até à sua invenção, as cartas eram redondas, concluí), houve de tudo. Cada uma melhor do que a anterior.
Nem tudo foi mau. Surpreendeu-me o Rosado Fernandes, que eu julgava um CDS profundo, quando vociferou contra o resultado final e, sobretudo, quando descreveu as alegações de defesa do Marquês de Pombal, acossado por "D. Maria I e a padralhada que a rodeava". Leonor Pinhão apresentou uma comparação com piada. Irónica e plena de significado. Só por ela, dei a noite por ganha: leu um documento de D. Afonso Henriques que concedia liberdade de culto aos muçulmanos, após a tomada de Lisboa, e seguiu para a leitura de um decreto de Salazar para o Instituto de Metereologia, onde se afirmava a primazia do "Chefe" a quem os subordinados deveriam obedecer, mesmo que contrariados, sem mostrar o mínimo sinal de discordância. "Oliveira Salazar, grande metereologista português", concluíu. O nosso Botinhas, acrescento eu.