Março 03, 2007
Cenas Obscenas
À hora a que escrevo estas linhas, está a decorrer uma manifestação em Santa Comba Dão a propósito da anunciada criação de um Museu do Estado Novo. Há também uma reunião de uns senhores que a imprensa diz serem "de extrema-direita" e um reforço policial para evitar confusões. Que já começaram. Os "anti-fascistas" fizeram a leitura de um documento/abaixo-assinado de protesto a entregar no Parlamento, no decorrer da qual foram insultados e vaiados. Não pelos "de extrema-direita" (esses, ninguém sabe onde estão ou o que fazem), mas pela população, que afirma que o Estado Novo teve coisas boas e más. Mas que não admitem que lhes retirem o "nome" mais famoso da terra. São 16.45 e esperam-se novos desenvolvimentos. Estas coisas fazem as delícias da imprensa de fim-de-semana, em época morna em acontecimentos de manchete, sem incêndios florestais, referendos "fracturantes", apitos dourados ou outros escândalos.
Alguém que me explique uma coisa. E que explique duas aos "anti-fascistas". Começo por estas.
Um ponto prévio: não nutro a mais pequena simpatia pelo senhor em causa. Para mim, é o símbolo do Portugal mesquinho e tacanho, fechado, beato e com manias de grandeza. No pior sentido. Para mim, devia ser construído um monumento a Salazar, sim. Mas não ali. Em Coimbra, no Portugal dos Pequeninos. Aí sim, seria a simbiose perfeita.
Mas adiante. Alguém explique aos senhores "anti-fascistas" duas coisas: que a liberdade é para todos, mesmo que discordemos dos outros. É fruta fresca, não são cerejas cristalizadas. É de hoje e de sempre, não pode estar presa, encarcerada numa data. A liberdade que Salazar não apreciava. Essa mesmo. E se alguém quiser fazer um altar a S. Salazar, com romagens e culto autónomo e tudo, qual é o problema? Não aguentamos isso?
Segunda coisa: o Largo do Carmo, a António Maria Cardoso, o Aljube, Caxias, são locais com memórias específicas. A respeitar. Santa Comba Dão também. Ora, num país virado de costas para um interior em desertificação, as pessoas agarram-se aos símbolos da sua terra. Santa Comba Dão é mais do que um ponto onde passa o IP 3. É também o local onde nasceu a figura mais importante da História de Portugal no século XX. E as pessoas da terra agarram-se, com algum orgulho, a isso. É compreensível. Há que respeitá-las.
Segunda coisa: o Largo do Carmo, a António Maria Cardoso, o Aljube, Caxias, são locais com memórias específicas. A respeitar. Santa Comba Dão também. Ora, num país virado de costas para um interior em desertificação, as pessoas agarram-se aos símbolos da sua terra. Santa Comba Dão é mais do que um ponto onde passa o IP 3. É também o local onde nasceu a figura mais importante da História de Portugal no século XX. E as pessoas da terra agarram-se, com algum orgulho, a isso. É compreensível. Há que respeitá-las.
Eis o que gostava que alguém (que tal algum psiquiatra?) me explicasse: porque é que em Portugal há tanta e tão má memória. Memória truncada, memória deturpada, memória clubística, que tende a pintar tudo a duas cores ambivalentes. O país onde existe maior orgulho pela História. Que não se conhece nem se estuda (isso dá muito trabalho), apenas se idealiza. A(s) nossa(s) "Idade(s) do Ouro" / a(s) nossa(s) "Idade(s) da(s) Trevas". Sempre a duas cores. E estamos a melhorar? não! A mais recente iniciativa do nosso serviço público de televisão é a prova definitiva. Lembram-se daquele filme com o Christopher Lambert e o Sean Connery com música dos Queen? "There can be only one". É isso, não é?



