Terça-feira, 25.03.08

Esta já vai atrasada. Mas antes tarde que nunca. Li, na Sábado de há duas semanas (nº 201), a entrevista/reportagem sobre José Rodrigues dos Santos. Fiquei devidamente informado sobre o dia-a-dia do cavalheiro. E a lição que nos dá a todos: "sou o escritor que mais vende em Portugal. Nos últimos quatro anos, já vendi acima de meio milhão de livros".

Estou longe de pensar que o sucesso deva ser motivo de modéstia, E muito menos de falsa modéstia. Mas mantenho a minha reserva: vender muito não significa ser-se um bom escritor. O síndrome Margarida Rebelo Pinto não me sai da cabeça. Enfim, adiante. Penso, porém, que quem vende tanto livro bem que poderia ser mais comedido a confessar certas coisas, porque não é sinal de coragem, mas sim de irresponsabilidade.

José Rodrigues dos Santos não recicla o seu lixo. Ou o come ao pequeno-almoço, ou simplesmente não está para isso. "Na parte que lhe cabe, poupa água. Mas pouco mais. Reciclagem? Pois, isso não. Nem vidro, nem plástico, nem papel? Nada? «Não, não faço. Sou uma pessoa normal». Muitas pessoas normais reciclam. «A média do cidadão não recicla o lixo. É muito complicado. Um saco é azul, outro é não sei o quê, aquilo é uma confusão»" (pág. 97).

Lembrei-me logo dos tempos em que célebres cromos milionários vangloriavam-se de declarar o ordenado mínimo no IRS. Hoje piam todos mais fino porque o fisco não dá tréguas. Chegará um dia em que a poluição será encarada a sério e estes meninos preguiçosos, balofos e irresponsáveis terão vergonha de dizer chalaças destas e começarão a fazer o que espero se torne "normal" rapidamente. Se for preciso meter o fisco, a ASAE ou a imprensa ao barulho, que se meta. Até lá, alguém deveria ensinar a estes filhos da abundância, da irresponsabilidade e do desperdício o que é um vidrão, um embalão, um papelão, um oleão, um electrão. Verde, amarelo, azul, laranja, vermelho. Tudo com cores diferentes para evitar raciocínios complicados que, já se sabe, estes intelectuais têm os neurónios ocupados nas tramas dos romances que escrevem. E se alguém um dia lhe encher a casa com o lixo que ele próprio produz e o afogar no entulho de que não cuida, no desperdício que não separa e cujo destino não quer saber, ninguém levará a mal por isso.




23 comentários:
De dr. maybe a 25 de Março de 2008 às 13:22
talvez se na missa o sermão for sobre essa dádiva de deus que é a terra e, de como nós, enquanto tementes a ele, temos de cuidar da terra o sr comece a perceber as cores.


De joão Amador a 25 de Março de 2008 às 13:33
Este gajo nunca irá ter um livro seu lido por mim. Ele não precisa de mim, mas eu vou viver mais feliz porque o meu dinheiro não irá contribuir para ele fazer lixo no mundo.


De Hugo a 25 de Março de 2008 às 14:35
Haja alguém que lhe mostre aqueles anúncios com os miúdos a colocarem o lixo nos ecopontos. Não é assim tão dificil, a não ser que se seja um idiota.
Talvez seja o caso.


De Jonas a 25 de Março de 2008 às 14:40
Em tempos houve uma campanha com um chimpanzé... devem ter achado que era demais, daí agora as criancinhas. Talvez se devesse rever essa posição.


De Mouro da Linha a 25 de Março de 2008 às 14:40
Vós sendes todos muito correctos, mas a verdade é que a maioria dos cidadãos não recicla o lixo - não tanto por ser complicado, mas por dar muito trabalho. O homem limitou-se a dizer uma verdade.


De Jonas a 25 de Março de 2008 às 14:41
O vidro é o mínimo, bolas! E o plástico também é muito fácil...


De jonasnuts a 25 de Março de 2008 às 15:46
Tunga, era o comentário que eu vinha aqui deixar.

E depois li os outros comentários, e apeteceu-me dizer mais qualquer coisa, porque alguém diz "a média não recicla, porque é muito complicado, o homem só se limitou a dizer uma verdade".

O facto de ser verdade (que a média não recicla) não legitima a coisa. Se a média não recicla é porque é burra, ou ignorante, ou pouco esclarecida ou arrogante. O senhor, o que fez, foi incluir-se no grupo dos burros.


De Mouro da Linha a 25 de Março de 2008 às 16:35
Problema dele. Ao menos foi sincero.


De FuckItAll a 25 de Março de 2008 às 19:32
Até se pode entender a coisa em si - mas não que isto seja dito com o ar satisfeito de quem está a fazer tudo certo.


De Mouro da Linha a 25 de Março de 2008 às 20:14
Não o vejo com esse ar, mas com o de quem, apesar de se achar o maior escritor português vivo, não quer dar ares de super-homem. O Zé é, afinal, um tipo normalíssimo, que nem sequer recicla o lixo...
Enfim, não reciclar o lixo é mau. Mas confessá-lo também não o torna pior.
Ah, tá bem, os maus exemplos cívicos. Esquecia-me do país em que estamos.


De boss a 25 de Março de 2008 às 17:17
Um dos calhamaços dele (pelo que vejo nas prateleiras dos hipers serão umas 2 árvores abatidas por exemplar) não é precisamente a alertar para o aquecimento global?

Seja como for, o Gervásio explica-lhe como é. Estou já a ensapar o vídeo para que aprenda!


De boss a 25 de Março de 2008 às 17:28
Pronto, o Gervásio já está em condições de explicar: http://videos.sapo.pt/oedfTD7LcDoJGvrmgDAg


De Jonas a 25 de Março de 2008 às 18:16
É isso! Gervásio... não me lembrava do nome do bicho.


De Shyznogud a 25 de Março de 2008 às 21:41
Acho q te vou roubar e acrescento ao post do Cenas.


De mário a 25 de Março de 2008 às 22:11
relativamente aos exemplos cívicos, apenas comento que este (o exemplo, o mimetismo, a orgnização) é um dos elementos basilares, a cola, do complexo social de organização cá da malta. mas podemos dar um hurra anarquia! é legítimo desde que se mantenha como tal.

Quanto ao génio das letras, se aprendeu a tirar macacos ás escondidas, não deve ser difícil esconder outro tipo de trogloditismos. Assim era só hipócrita, ninguém notava e não promovia, figura pública, engraçada e genial, o colapso cá da casa, consumido pela própria desmusua do consumeo e desperdício.


De José Manuel Faria a 25 de Março de 2008 às 22:26
JRS é um artista basta ver o jornal do canal1. Triste, sorridente e pisca o olho, conforme a notícia. livros dele, não conheço.


De cenas obscenas a 25 de Março de 2008 às 22:38
Pois. Ao "cidadão normal" tudo é permitido dizer. Coitadinho do JRS, que apresenta telejormais, vende centenas de milhares de livros mas, no fundo, é um de nós. Um catita, um fixolas, humano e porco como nós. Fiquei a simpatizar mais com ele, porque não é hipócrita, porque é sincero, porque não mentiu. Se ninguém recicla, porque há-de ele fazê-lo, mesmo que escreva romances sobre o aquecimento global?

Happy?


De Mouro da Linha a 26 de Março de 2008 às 10:23
Eu não simpatizo com o homem, nem sequer sei se escreve bem. A ajuizar pelas vendas, deve escrever tão bem como o Tony Carreira canta. Tudo bem, também gostava, e um dia se calhar tento fazer como ele (já que pela voz não vou lá). Antes isso que roubar, diria o meu pai. E, nessa altura, adequarei as minhas declarações públicas ao meu estatuto respeitável, sabendo que irão pegar por tudo o que eu disser ou não. Até lá, vou dizendo javardices.


De Shyznogud a 26 de Março de 2008 às 10:59
O senhor terá sido honesto e, nesse caso, não merecerá este coro de indignações, é isto que defendes, certo, Mouro? Então, desculpa lá, q fosse honesto até ao fim e dissesse "Separar é chato e eu sou preguiçoso" ... agora pôr-se com conversa de que é complicado? Plize...merece bem q lhe esfreguem com o gervásio na cara.


De Mouro da Linha a 26 de Março de 2008 às 15:14
E não foi isso que ele disse? Please, não estamos a falar de matemática avançada ou de física quântica. Eu sei que fui eu próprio que separei as categorias, mas uma coisa complicada não passa de uma coisa que dá trabalho a resolver. É sempre de preguiça que falamos.


De Cenas Obscenas a 26 de Março de 2008 às 10:29
That's the point. Ninguém "pega". Já se fosse ministro, ai dele se alguém o visse a deitar um papel para o chão ou, pior, a fumar um cigarro.


De Mouro da Linha a 26 de Março de 2008 às 15:10
Pegaste tu, filho. That's the point. Ou não és ninguém? Ele é que não é tão importante como isso.


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