Terça-feira, 28.10.08

... ou estes têm andado a cobrar dinheiro para fazer o que eu e toda a gente pode fazer em casa.




Há uns tempos largos e provando que as glosas aos motes podem sempre tomar caminhos imprevistos, numa mescla de sexismo, publicidade e outras coisas, pusemo-nos a falar de BD muuuito decente e surgiu, claro, a referência ao filme "Fritz, the Cat". Acabei de descobrir que se pode ver no Youtube, cortado em partes, naturalmente. Fiquem com a primeira como apetizer e, se se sentirem estimulados, as restantes são fáceis de encontrar.




Sempre achei que um dos problemas de Portugal tinha a ver com desequilíbrios elementares e falta de elementar bom-senso. Uma irresistível queda para o exagero, uma ausência gritante de sensatez básica. Onde? Em todo o lado, um pouco espalhado em todo o sítio. Ah! E um banalíssimo e vulgaríssimo desrespeito pelos outros, pelo seu trabalho e pelo seu tempo.

Há meses, mais precisamente em Agosto, o IC 19 estava em obras (ainda está, mas isso não importa agora). Quem gere a obra decidiu fazer cortes e desvios ao fim-de-semana, para minimizar o impacto no trânsito. Até aqui tudo bem. Até gastaram ums milhares de euros a anunciar o coiso na imprensa, com anúncios enormes, pelo menos, no DN e no Público. Os engarrafamentos, ainda maiores do que o anúncio, não deixaram de se verificar, porém. Posso dizer que estive, em certo sábado, 40 minutos para percorrer 500m. E o que tem isto a ver? Com tudo. Quem entrava no IC 19 (Sintra-Lisboa) era apanhado na ratoeira sem apelo nem agravo. Entras, tás feito, não podes voltar para trás. E, após penosa espera, quando finalmente se atingia o local do corte, eis que nos deparávamos com um trio (ou quarteto, não me lembro bem) de garbosos guardas republicanos, de colete amarelo a rigor, de sorriso em riste e aprumo imaculado. Provavelmente estavam a guardar os monos de betão que cortavam a estrada, não fosse algum automobilista querer levar um como recordação ou atirá-lo às ventas de alguém. Ou então usavam o amarelo reflector, numa tarde solarenga de Agosto, para prevenir quem estivesse adormecido,de que tinha que se desviar. Não sei. Sei, sim, é que fervi e fiquei de todas as cores, porque bastava que cada um deles se colocasse nas entradas a montante e avisasse as pessoas para que usassem a "Alternativa Rio de Mouro Velho" (que quem quer que bata com os costados naquela via conhece de ginjeira). Ou umas placas a informar, também serviam. Assim se gastariam 5 minutos em vez de 40. Mas quem quer saber disso, se as pessoas chegam a tempo ou demoram duas horas numa fila? Mais tarde fui informado de que "não é função e responsabilidade da polícia fazer isso, mas sim da empresa". Pois.

Hoje tive prova de que estas coisas funcionam para os dois lados. Uma das vias da região está em obras por causa, ao que parece, das condutas do gás natural. Portanto, numa estrada com curvas e relativamente estreita, é necessário usar a velha solução da via única e do semáforo. Num troço com uns 300 m, é o que acontece. Mas desta vez a empresa que faz a obra não quis, provavelmente, ser vítima de queixas ou de insatisfação dos automobilistas. Portanto, desde há uns dias, lá estão dois guardas, um em cada ponta do troço, devidamente munidos de rádios, para fazer fluir o tráfego e zelar para que aquilo não redunde em confusão generalizada. E tão grande é o zelo, tão larga é a vontade de servir a coisa pública, que cai no ridículo: polícias a mandar avançar o trânsito quando o sinal  do semáforo está vermelho, polícias a mandar parar quando está verde. O efeito é risível: as pessoas ficam confusas, avançam e depois páram subitamente ao ver o ar zangado do xô guarda de braço erguido, pedem desculpa, ou então avançam devagarinho, temerosas e reverentes, ao ver o sinal vermelho aceso mas o agente a mandar avançar, avançar. "Posso?".

Ninguém se lembra de desligar os aparelhos ou de mandar os senhores para outro lado. Ou, pelo menos, de mandá-los olhar para as cores. Este pais tem destas coisas.