Terça-feira, 21.10.08

E em boas companhias!




Saberá o benemérito leitor o que são palas de protecção nos automóveis? Aquelas coisas que os popós usavam há uns anos nos guarda-lamas para evitar espirros, que eram obrigatórias e que depois deixaram de ser? Pois deixaram, ao que parece. Wrong! Deixaram de ser obrigatórias a partir do momento em que a directiva comunitária entrou em vigor por cá, ou seja, 1 de Janeiro de 1993. Se alguém tiver o azar de ter um automóvel anterior a essa data, um dia ou dois que sejam, a obrigação mantém-se.

Nada disto seria muito grave, não fosse a recente sanha daquelas invenções geniais da Divina Providência chamadas de Centros de Inspecção. Durante anos a fio era a balda geral. Cheguei (juro!) a ir lá com um pneu da frente a dar para o careca, falar com o inspector acerca do assunto e ele dizer que "não tinha reparado". É verdade que o Homo Lusitanus está-se positivamente a cagar para o estado de segurança da sua viatura. Quer é que "passe", mesmo que não trave, não curve ou não faça pisca. Se não "passa", acha logo que é birra do inspector. Mas agora, desde que a DECO andou para aí a armar ratoeiras e a apanhar os gajos com as calças em baixo, os senhores, sempre prontos a cumprir a tradição nacional do exagero, viraram 180º e passaram a encornar com tudo o que é pintelho.

Tenho um carro com 17 anos. Ainda está aí para as curvas. É inspeccionado há bué. Nunca houve problema de maior. Este ano, vá lá saber-se porquê, lembraram-se das palas (que nunca teve; ou teve uns dois anos, não me lembro). Pimba! Chumbado. Sabiam que é "deficiência nível 2", ou seja, é algo que compromete a segurança do veículo e que obriga a reparação urgente no prazo de um mês? Pois é. Lá andou o pobre do moço (eu, para quem não perceba) à procura de palas, depois de devidamente informado pela DGV, numa odisseia telefónica de horas. Falei com mais de meia dúzia de pessoas, saltitando de linha em linha. Até que alguém se compadeceu da minha triste sorte e lá me satisfez a gula curiosa.

Confirma-se. Ninguém pensou no disparate que é estar perante dois carros iguaizinhos, um de 92 e um de 93, um obrigado a usar palas e o outro não. Não fosse os senhores dos Centros de Inspecção terem ido desenterrar esta e ninguém precisaria de saber, tanto mais que são carros no "corredor da morte", a abater a curto prazo. Na DGV, perante o reconhecimento da situação absurda, deram-me uma alternativa à colocação dos ditos monos. Uma chapadona no inspector e meia dúzia de insultos à mãe dele? Isso queria eu. Algo muito mais simples: uma declaração da marca ("tem que ser o representante, não basta um concessionário") assegurando que o modelo em causa está conforme a homologação #*@$*/93 e comprovando que o carrito andar sem palas não constitui perigo para a circulação dos portugueses em particular e da Humanidade em geral. Depois, com essa declaração, bastaria ir alegre e pessoalmente aos serviços regionais da DGV e eles averbariam a informação ao meu livrete, que depois poderia, exultante e eufórico, esfregar nas ventas do inspector. Simples, prático e rápido. Mas como sou complicado e sigo sempre o caminho mais difícil, escolhi a hipótese B.

Regressei lá hoje. Nova inspecção porque o prazo da reinspecção acabou no sábado. O inspector (era outro) fez o seu trabalho. Mas descobriu outra mazela que escapara ao colega: a porca que segura a bateria não está apertada a 100%. A bateria , coisa levíssima, abana, se metermos lá a manápula e fizermos chocalhar aquilo. Portanto, como nunca se sabe, e é melhor prevenir graves riscos para quem circula nas proximidades, não vá ela voar às trombas de um qualquer transeunte ou dar saltos ou espasmos e matar qualquer criancinha que vá a passar, mesmo que para isso tenha que sair do sítio, partir o parafuso e a patilha de segurança, desligar os cabos e passar através do capot, lá ficou o facto assinalado no relatório.

Considerem-se, pois avisados.