Domingo, 05.10.08

                          

Às 10 da manhã da passada segunda-feira estavam 5 graus em Riaño. O ar frio e sem vento vaporizava-se sobre as águas paradas da barragem, que pareciam ferver. E uma nuvem ondulante colava-se às cumeadas rochosas da cordilheira cantábrica. Era tão belo que quase fiquei deprimido por não ser possível apanhar aquilo tudo com uma simples câmara fotográfica.

Ali, na antecâmara dos Picos de Europa, eu contemplava uma Espanha silenciosa e fria, um mundo distante de tudo, parado numa indiferença milenar e na sua majestade natural. Uma Espanha que não era a minha.

Não, a minha Espanha não era esta. A minha Espanha era a do Sul, com todos os seus clichés – sol, calles abrasadas, pó e charnecas desoladas, tapas, flamencos e pasodobles. Uma Espanha inicialmente imaginada na meninice através de visitas ao Ribatejo aqui ao pé da porta – uma Espanha que cheirava a cavalos e a azeite, com cartazes de touros, pátios mouriscos e uma língua que pouco mais era do que um português apalhaçado. Lisboeta de pai e mãe, a minha Espanha não é a de Vigo ou a Coruña, mas a de Badajoz ou Sevilha.

Até hoje, em cada ida a Espanha eu não consigo evitar compará-la com essa imagem inicial, e acho que nunca deixarei de o fazer. Ainda hoje, e mesmo muito depois de ter descoberto as sonoridades viscerais de Garcia Lorca, ou a força e a beleza plástica de que a língua espanhola é capaz, até numa simples crónica de jornal, eu contraponho ao que oiço ou leio essa caricatura de português que me soava na infância ainda povoada de Joselitos, Marisóis, palhaços de circo, pesetas fracas, caramelos baratos e imagens de gente de alpercatas trazendo as cicatrizes de uma vaga guerra civil travada numa terra cruel onde se matavam touros na arena.

                            

Não, a minha Espanha não era esta das paragens quase alpinas, das gentes de fala sóbria e sotaque austero – esta España húmeda de que falava Ortega y Gasset quando, através dos penhascos cantábricos, passava como eu das planuras castelhanas para as matas e pastos verdes da costa asturiana, envolta em brumas atlânticas, de que se diz ter por fronteira norte “a Inglaterra, com o mar de permeio.”  A verdade é que lá também dizem que “a Espanha é isto, e tudo o resto não passa de território conquistado aos mouros.”

É no fundo por esta não ser a minha Espanha que eu amo a Espanha e gosto dos espanhóis. Porque gostam da vida e de ser o que são, e pelo país que têm, onde há de tudo. E porque, como se vê pelas citações, também têm complexos mais ou menos velados – de inferioridade em relação ao Norte, de superioridade em relação ao Sul. Esse país a que, apesar de tudo, me orgulho de não pertencer, também é um pouco meu, e de todos nós aqui neste canto. Parafraseando Jean-Marie Le Pen de forma benigna, j'aime bien les espagnols, surtout chez eux.

           

 




 

Quase todos nós temos uma praia que nos acompanha ao longo da vida (mesmo se já deixámos de a frequentar), aquela a que associamos os longos verões da nossa infância, quando as férias tinham meses que não terminavam (o que nos fazia chegar a esta altura do ano mortinhos por voltar à escola - o cheiro dos cadernos e dos estojos novos estará sempre associado, na minha memória olfativa, ao mês de Outubro). Eu tenho também um rio... O meu pai nasceu numa aldeia transmontana, situada na margem direita do Sabor, onde, durante anos, passei parte das minhas férias de Verão.* Para nós, os priminhos da cidade, os dias que por lá passávamos eram dias de "festa", mas o Verão é, por natureza, a mais violenta época de trabalho daquelas bandas, por isso os dias de festa a sério, aqueles em que havia uma comunhão de "fazer nada", eram os dias em que que se juntava o bando (e o bando era enorme, garanto-vos) e rumávamos ao rio, numa peregrinação quase ritual. O cúmulo da excitação era conseguido quando tínhamos direito a boleia nos burros que iam carregados de roupa para ser lavada no Sabor (normalmente eram os mais pequenos que tinham esse privilégio, como sou para aí a quinta mais nova entre 26 primos fui muito privilegiada, yeees) porque o caminho, especialmento no regresso, era duro. Subir aquelas encostas, cobertas de pedregulhos (fragas, como gostam de dizer por lá), não era tarefa fácil... mas punha ao nosso dispor visões absolutamente magníficas, em que quase nos sentimos oprimidos pelo poder daquela natureza bruta e agreste. Tenho-me lembrado muito do "meu" rio nestes 3 últimos dias ao ler, no P2, a reportagem feita por Alexandra Prado Coelho com fotografias de Paulo Pimenta, "Da nascente à Foz - Viagem pelo rio Sabor" (podem ver as fotos se clicarem na imagem acima).

 

P.S. - A tradição familiar mantém-se, para os meus filhos "ir ao rio" continua a ser sinónimo de "ir ao Sabor".

 

* Também lá passei férias noutras alturas do ano mas o frio, naquelas casas cheias de brechas, tolda-me as recordações. As noites de Inverno, quando tinha de me enfiar em gélidos lençóis de linho, eram a maior das provações (abençoada seja a minha mãe que, quebrando as tradições, às tantas resolveu que lençóis de flanela é que era e que se lixassem as cunhadas).







                              

 

Cumpre-me anunciar que levei a cabo um acto fracturante e que, apesar de ser heterosexual e, nesse sentido, o ter realizado com uma pessoa de sexo diferente do meu, estou feliz da vida.




O João, inspirado pelas declarações do sô presidente, foi bucólico e lembrou-se da vaquinha enquanto  eu segui o caminho mais tecnológico.




Comecei o dia a ler na cama (estar doentinha tem vantagens, as crianças servem-me o pequno-almoço au lit e vão-me comprar o jornal), deliciada, a entrevista com Maria José Morgado e Saldanha Sanches na Pública de hoje. Assim que possível tratei para aqui excertos.

Ainda há pouco tempo, em fórum mail-privado, tinha andado a discutir um dos temas abordados, o conservadorismo moral das esquerdas pré (e imediatamente pós)-74.

 




From down'under
sinto-me:


organizar a semana que vai entrar de modo a poder ir à AR na sexta marcar presença. Se há alturas para nos pormos presentes e visíveis, são estas em que se discute questões da mais elementar justiça. É de decisões destas que se faz um país, mesmo que isso custe tanto  a entender a algumas pessoas.

 

*a coisa é à tarde? pleeeaze? se for posso ir


sinto-me: