Segunda-feira, 08.09.08

"Alá fê-lo tão belo [nr.:ao acto de copular], cheio de prazer e atractivo para torná-lo num imperativo constante. É só desta forma que todos os sentidos a nós concedidos podem ser usados como o Misericordiosíssimo pretendeu. Somente assim a cópula dos seres humanos pode diferir dos animais. Mas, infelizmente, embora saibamos dessa diferença óbvia, geralmente a cópula praticada pela maioria dos seres humanos parece-se, muitas das vezes, em todos os detalhes, com a dos cães, bois, aves e outros animais: feitas de um encontro apressado, institivo, selvagem e muito breve.

Nestas situações o homem obtém um prazer diminuto, e a mulher, nenhum.

O resultado destas práticas, são tensões nos músculos, nos orgãos e nas articulações. Desta maneira, os homens por vezes transformam-se em bestas nervosas e opressoras, e as mulheres, em velhacas."

 

Al-Sayed Ibn Hussein Al-Makhzoumi, Breve Tratado das Artes da Cópula, Lisboa, Padrões Culturais Editora, p.16

 

P.S. - Bizarro, na capa da edição portuguesa aparece a indicação de que o livro foi escrito em 1725 enquanto as referências que encontro para edições estrangeiras situam-no em 1200.




A 10 de Agosto de 2005, o jornal satírico The Onion relatou o caso do último homem a ceder ao telemóvel. Como comprara o meu primeiro telemóvel havia pouco tempo, o artigo despertou-me empatia. Sabia também que um amigo meu resistia ainda e sempre, como o irredutível gaulês. Há uns meses, quando me encontrava com ele em Barcelona, parte do jantar na Plaça Reial foi passado em silêncio. Pesado? Nem tanto: ele enviava freneticamente mensagens para Itália e eu, menos frenético, enviava mensagens sei lá para onde. A Onion não se enganara no essencial, apenas antecipara uma capitulação inevitável.

Na ressaca do incidente na escola Carolina Michaëlis, Pacheco Pereira fez do relógio de pulso o parente mais chegado do telemóvel, porque só estes objectos se colam ao nosso corpo como pioneiros prolongamentos robóticos de uma ficção científica por escrever. Faz sentido. O relógio de pulso escravizou-nos e libertou-nos do tempo, tal como o telemóvel nos escravizou e nos libertou dos outros. Prova teórica de uma intrínseca capacidade para forjar hábitos foi a sua entrada imediata no cinema. Porquê? Por propiciar enredos novos, apetecíveis a um ficcionista. Já na vida real, os óbvios benefícios do telemóvel vêm com um ónus. O que temos, então? Um absurdo e tentacular reforço das redes sociais e uma vigilância de que somos vítimas e também agentes, conscientes ou involuntários. Uma cacofonia constante que levaria um operador telefónico omnisciente ao suicídio, porque a facilidade de contacto fez decair a qualidade da conversa. Uma nova fórmula – “onde estás?” – que com treino aprendemos a reprimir sem que deixe de pairar quando não se concretiza. Uma extensão do significado de “telenovela”, que tanto designa os folhetins televisivos como o drama amoroso da vizinha, numa calçada  perto de si. Percebe-se bem que o meu único interesse em mudar de telemóvel é poder espatifar o antigo modelo contra uma parede. Mas eu perdi, como toda a gente. Há hoje mais telemóveis em Portugal do que portugueses, número que subtraído de um (minha querida mãe) dá a dimensão do contingente dos meus potenciais inimigos. O telemóvel só é aliado de quem faz a chamada. E das operadoras, claro.

Vem o desabafo a propósito da decisão da Procuradoria-Geral da República de dar razão à interpretação que a Autoridade Nacional de Telecomunicações fez do decreto-lei que proíbe o arredondamento em alta das chamadas. O Governo pretendia que os consumidores pagassem apenas o tempo efectivamente utilizado, mas parece que se manterá um custo inicial fixo. Ainda bem. Ninguém sabe o que é este custo fixo, se um “consumo mínimo obrigatório”, se uma “taxa de activação”. No meu mundo ideal, seria sempre um preço a manter, para depois recuperar como imposto às operadoras, algo inspirado na taxa Robin dos Bosques por causa dos lucros milionários, mas que aqui seria sobretudo uma taxa Rodin, em alusão à pose contemplativa e silenciosa de O Pensador, a estátua mais famosa do artista. No mundo real, as operadoras vão continuar a facturar e esta taxa não se aplica, mas pelo menos não se incentiva ainda mais a tagarelice. Pense nisso.

 

Crónica do Vasco, que marca o regresso dele às segundas-feiras do Metro.




... ou o furacão que assolou o Golfo de México há dias não só mudou de intensidade e de dimensão, ao sair das águas tépidas e ao entrar em terra, mas também de nome, ao sair da América Latina e entrar na América Anglo-Saxónica? É o que depreendo das notícias que circularam por cá. Era "Gustavo" e passou, logo que passou Cuba, a "Gustav".

Hmm aguardo, com expectativa, quando é que baptizarão um de "Guillermo" que passará a "William" ao entrar na Florida, ou um "Tiaguito" que se transmutará em "James".




 

Não sei bem que mensagem me quiseram transmitir quando me ofereceram este livro, comprado na Festa do Avante, dizendo "Olhei para ele e é mesmo a tua cara".

 

Adenda: vendem-se coisas muito estranhas na Festa do Avante... e não estou a falar dos tratados das artes da cópula, ok? Até porque este me parece inscrever-se naquela velha tendência de educar o povo.




Ah! Vamos acabar com esta coisa. Isto é uma molhada enorme de oitenta tipos e espécies de cornudos, os de ordem simples e ou de ordem composta, segundo este declarado adversário do Marquês de Sade, "um dos primeiros defensores do amor livre", Charles Fourier.

 

"Não há senão vítimas na cornadura e essa é apenas uma das «desgraças» do casamento, expostas na sua Théorie de l'Unité Universelle; sendo o casamento o próprio exemplo da maneira como a civilização submete as paixões."

 

E pronto, posto isto...

 

"N.ª 62. Cornudo de todas as espécies é o que cumula em catadupa todas as dignidades da ordem. Começou por ser cornudo em potência; depois disso, figura necessariamente entre os simpáticos, os ortodoxos, os enfeitiçados, depois as outras espécies risíveies pela ingenuidade, conservando sempre a serenidade inalterável por entre  todas as vicissitudes. E para completar a obra, encontrará, se morrer a tempo, um tribunal que lhe atribuirá um ano depois da sua morte, a fim de não falhar o último grau da ordem que é a de cornudo dos dois mundos [n.º49]."

 

Dos cornudos: suas espécies e tipos, Charles Fourier, Cavalo de Ferro, 2004