Sexta-feira, 05.09.08

Nem mais, Helena...

 

«(...)Há tempos uma revista (julgo que foi o Spiegel) publicou uma entrevista com ela, que não li. Mas adorei ler no número seguinte este comentário de um leitor:

"Emancipação seria duas jornalistas perguntarem a um ministro como é que ele compatibiliza o trabalho com a família!"»




Eu, que costumo ser muito crítica daquele discurso muito comum "A juventude de agora é oca, burra" etc. etc, até me engasguei quando li esta notícia no Sol. Não há temas para um referendo de seis em seis meses? Ora, não faz mal, discuta-se a cor dos atoalhados (sou só eu que acho esta palavra um must?) do Palácio de S. Bento!




                                                 

                                                                       Peccioli

 

Num dos lados da praça principal de San Gimignano existe uma gelataria que ostenta orgulhosamente o diploma do primeiro lugar no Campeonato Mundial de Gelados. Eu nem sabia que existia tal coisa. Mas, obviamente, cuidei de provar os gelados campeões do Mundo. É coisa que fica bem em qualquer currículum e merece ser relatada. Para a posteridade, fica registado que o dito manjar sabe ao que deve saber a neve que cai no Paraíso sobre as frutas dos pomares divinos.

San Gimignano é conhecida pelas suas catorze torres, concentradas no centro histórico. Vistas de longe, parecem uma pequena Manhattan medieval erguida numa colina sobre a paisagem toscana. A vila é uma escala obrigatória, pelo que conserva de sabor antigo no casario de pedra castanha, ruelas, praças e recantos onde se descobrem alpendres, claustros, paredes cobertas de frescos e a memória de séculos. Percorri tudo aquilo. No entanto, o que mais recordo agora é o sabor daquele creme gelado, mais efémero que um dia de vida. As torres centenárias de San Gimignano sabem-me hoje a morango, meloa e manga.

 

                               

                                                              Panzano in Chianti

 

De Siena trago a espantosa luz do entardecer, quando o sol coado pelas nuvens  doira tudo e acentua o castanho-avermelhado do casario. De Pisa, tenho o cheiro do mar, a pior pizza que comi em Itália (é verdade) e as intermináveis figuras de parvo feitas pelos turistas no relvado tentando tirar fotos a fingir que estão a segurar a torre ou a apanhar com ela em cima.

Não sei como será San Gimignano sem gelados, Siena sem nuvens de trovoada ao fim da tarde, Pisa sem turistas ou pizzas intragáveis. O que trazemos das cidades é muito pouco, porque elas não se deixam desvendar facilmente. Não sei como é Florença no Outono ou no Inverno, e muito menos o que é realmente a cidade, o seu lado menos evidente, a sua alma, que apenas julgamos entrever para lá de uma janela entreaberta, num vulto que passa, nuns olhos que nos cruzam no passeio. As terras têm uma fachada que oferecem ao forasteiro, mas para lá da qual lhe resistem.

A mulher da minh'alma já tinha passado aqui cerca de um mês, há anos. Viveu-o na melhor das condições possíveis: com gente da terra, que lhe desvendou os recantos, os segredos, as misérias, o ritmo quotidiano. Entrou nos quartos e nas cozinhas, comeu com eles à mesa e bebeu do seu vinho, riu e chorou com eles, ouviu-lhes as preces e as pragas, viu céus estrelados em lugares secretos no alto das colinas e em castelos que não vêm nos roteiros.

Eu não conheci Florença, nem San Gimignano, nem Siena ou Pisa – como não conheci tantos lugares por onde andei no mundo. Trouxe de lá umas impressões, uns cheiros, umas fotos. Não saboreei: devorei, apertado pelo tempo e pelos quilómetros, tentando descobrir a alma dos lugares nas ruas e ruelas, nas latadas, nos campos de trigo, nas colinas raiadas de vinhedos e olivais, nas "villas" entre os ciprestes que, como agulhas solenes, pontuam a paisagem rural da Toscânia, tida por muitos como a mais bela do Mundo.

                                          

                                   

                                                     Para as bandas de San Gimignano

 

Entrevi essa alma aqui e ali – por exemplo, na conversa dolente de dois velhos sentados num banco de aldeia que podia ser no Alentejo ou em qualquer outra parte, comentando a chegada iminente da chuva sobre os campos. Percebi-a quando parei numa tasca em Panzano pedindo um afetatto misto e dois copos de chianti - e o dono, com um cortante "Posso parlare?", me interrompeu o pedido e discriminou, de ementa na mão, todas as outras delícias que tinha. Então eu disse-lhe: "Queremos um affetato misto e dois copos de chianti". Ficámos amigos.

Ouvi os velhos durante cinco minutos – o tempo de desentorpecer as pernas. Estive uma hora e meia em Panzano, numa varanda com cadeiras e mesas de plástico sobre colinas de vinhedos e bosques de pinheiros mansos, comendo presunto e salames e bebendo um vinho que, como diria o Eça, "tinha mais alma que muito poema ou livro santo". E estes e outros momentos são-me agora mais caros do que as cinco maravilhadas horas na galeria dos Uffizi, as trezentas fotos que tirei ou o limoncello que agora estou a beber. Pois nada os podia ter fotografado, nada os poderia ter gravado melhor do que a memória de ter, ainda que por breves instantes, vivido nos locais por onde passei.