Sábado, 30.08.08

 

(quero ver se tens coragem para me dizer que isto não é muito bom - atenção à letra!)


sinto-me: americana


                                                  

Quando soaram as badaladas da meia-noite na torre do Palazzo Vecchio anunciando a chegada do fatídico dia dos meus anos, eu estava ali na Piazza della Signoria, trincando um coraçãozinho de chocolate comprado na Rivoire da esquina. A cidade escaldava ainda de um dia abrasador. Faziam quase trinta graus àquela hora, e eu tive inveja do David, do Neptuno, e dos outros seres em pelo que ali estão cinzelados e expostos.

Levei na bagagem para Florença um livro de David Leavitt. Como E. M. Forster, que escreveu o livro mais icónico passado em Florença, Leavitt é homossexual, e só por isso já se compreendia o seu fascínio pelo ambiente sensual da cidade em geral, e pela Signoria em particular. Ele diz que aquela praça não é para mulheres. Faz sentido. Ali se juntam, eternizados na pedra e singularmente irmanados, a misoginia e os fantasmas homoeróticos. A ostensiva nudez masculina "calcifica a fanfarronice sexual". As figuras femininas ou são as Sabinas violadas ou Judite cortando a cabeça a Holoferne. Acrescento eu: toda aquela exuberante genitália à solta é demasiado explícita para os meandros do desejo feminino, que me perdoem as campeãs e os campeões (pareço um político a falar) da indiferenciação dos géneros. Mas um homossexual masculino é geralmente mais terra-a-terra nos seus impulsos e  vai, digamos, mais direito ao assunto.
Ali, o termo "arte erótica" nunca pareceu tão redundante. Toda aquela arte é erótica, e lá no fundo deve haver pouca gente insensível à sugestão carnal do David, de corpo tão perfeito e ao mesmo tempo tão desproporcionado (a cabeça enorme é de um adolescente, mas as mãos, também enormes?). Não caem parentes na lama por confessar tais sensações perante a mais bela estátua do mundo – pelo menos, perante o original que está na Academia, se não se quiser pecar por uma simples cópia.
No geral, Florença é uma Meca gay, passe a cacofonia escatológica. Mas ela até vem a propósito para lembrar que não cheira especialmente bem, ao contrário de qualquer ideário romântico. Há ruas que cheiram a esgoto e a lodos do Arno. O que também faz sentido, porque é como se algo nos quisesse lembrar que toda aquela beleza é de fabrico humano, e que a vida tem um lado podre. Quem quiser perfumes no ar, que saia da cidade e vá para as colinas (mas lá iremos). Florença, a bela, foi construída sobre planícies pantanosas onde ainda não há muito se morria de paludismo, conquistada às lamas e aos miasmas à custa de drenagens persistentes e dinheiro dos Médici, que não pagava só políticos e artistas.

A uns metros de mim, os turistas caminham sobre um medalhão de bronze incrustado no solo da Piazza, ignorando geralmente o que ele representa. Assinala o local exacto em que Girolamo Savonarola, o franciscano que ali acendera a fogueira das vaidades florentinas, foi ele próprio levado à fogueira em 1498. Erguera-se contra a imoralidade, a sensualidade, a devassidão renascentista da cidade. Queimou livros, quadros, estátuas e cosméticos. Mas a cidade cansou-se, e queimou ela própria o fradalhão, atirando as suas cinzas ao Arno sob o Pontevecchio.

Há quem lhe chame justiça poética. Quanto a mim, podia ficar agora aqui o resto da vida a encadear metáforas sobre a morte e a vida, o bem e o mal, a beleza e a podridão. Mas, felizmente, não me apetece.



 

 




                                                                                             

                                                  Quarto com vista para a cidade

 

Este Verão mudei de década de vida, e achei que Florença era um bom sítio para celebrar tal mutação etária com a mulher da minh'alma. Nunca lá tinha ido.

Já andei por sítios que não lembram ao diabo. A uns não gostei de ir, mas gosto de ter ido. Florença era daqueles a que eu gostei de não ter ido antes, e que tinha guardado como uma garrafa de vinho, alimentando-me do gozo que teria ao bebê-la. Há poucas coisas mais invejáveis do que os olhos de um neófito.

Ir a uma cidade onde se concentra um quinto de todos os tesouros artísticos do mundo, e onde a cada esquina se tropeça com um, é como ir a um banquete. Acabamos por perder o apetite e não comer nem um décimo das coisas que gostaríamos. Estar num sítio é deixar de estar noutro, e nem uma vida inteira chegaria para ver tudo. Stendhal chegou aqui e, perante o estendal de arte (não resisti a esta…) ia-lhe dando uma coisinha má, tipificando uma síndrome que até já está cientificamente estudada. Convenhamos que é uma doença chiquérrima: "Querida, o médico proibiu-me Van Goghs, Ticianos e tudo quanto seja impressionista. Agora só posso ver umas coisinhas abstractas, uma aguarelas inglesas e um pré-rafaelita de vez em quando. Rubens, por exemplo, nem pensar, dá-me logo palpitações."

Como no resto do país, muitos dos tesouros de Florença estão ocasionalmente escondidos por andaimes e tapumes. Manter tudo aquilo em bom estado é um trabalho de Sísifo, e quando se acabou de recuperar tudo, há que começar de novo. A Itália é um estaleiro permanente. Felizmente que neste momento só as traseiras da catedral estão a ser limpas. Desembocando do Borgo S. Lorenzo, vindo dos lados do mercado, topei com a incomparável fachada do Duomo a brilhar e soltei um grito da alma: “Caralhos me fodam, que coisa mailinda.” Não sou o Stendhal.

Quando Deus distribuiu a beleza pela Terra, grande parte foi parar a Itália. Se esta desaparecesse, o mundo ficava muito mais feio e triste. E não falo só da arte – falo da terra, das pessoas e do que elas continuam a fazer no dia a dia. A empregada do tasco põe-nos à frente uma choruda bisteca fiorentina e abre as mãos em adoração: “Guardi comme é bella!”. Só neste país é que uma costeleta é servida com a reverência prestada às obras-primas.