Quarta-feira, 20.08.08

Em 1968, eu tinha 2 anos. Por isso, nem Maio de 68 nem Primavera de Praga me passaram pelo estreito. Mas sobre este último evento arranjei um excelente substituto. Um dos filmes que mais me marcaram, e que a Shyz referiu há dias. Vi-o há 20 anos, uma única vez, e ainda hoje me deixa cicatrizes. O "take off your clothes", a cena do bar, em que jovens checos tocam o "Hey Jude" e improvisam rock'n'roll sobre uma canção russa chata, o Tomas a operar e a assobiar ao som da música que ouve do exterior. Mas há uma música que me marcou mais profundamente, e que ilustra, no filme, o rescaldo da entrada dos tanques russos em Praga. A imagem da desolação. Não tenho as imagens, ficam os sons:

 

Noutro registo, lembro-me de uma anedota deliciosa que o Bénard da Costa contou numa crónica do DN e que li há uns anos. A piada que achei resulta, evidentemente, da minha falta de vivência dessa época. Era mais ou menos assim: "nessa altura, gracejava-se, dizendo que Salazar caiu da cadeira quando alguém entrou no gabinete e disse «Sr. Presidente do Conselho, os Russos entraram em Praga», e o velho ditador terá percebido 'Braga'. O susto foi tal que teve os efeitos que se conhecem".




Quem me conhece, um bocadinho que seja, saberá que era inevitável que hoje viesse aqui dar um pulinho para relembrar os acontecimento de há exactamente 40 anos. Ao ligar a net percebi o que era expectável, já outros fizeram aquilo que me propunha fazer e tão bem que não vale a pena muito mais prosápia que indicar o caminho para tais textos. Dois, em especial, mereceram a minha atenção. Um do Rui Bebiano, publicado em eco no Terceira Noite e no Caminhos da Memória, (que relembra, entre outras coisas, o testemunho de Flausino Torres, em Praga à altura dos acontecimentos) e outro do A. Teixeira, no Herdeiro de Aécio ( neste último domina o tom irónio, já que A. Teixeira faz um paralelismo de saison, "Estão quase a perfazer-se 40 anos que, aproveitando os calores de Agosto, o destino turístico escolhido pelos excursionistas foi a lindíssima cidade de Praga (acima). O amor à verdade manda referir que nem tudo correu bem: os condutores das auto-caravanas, em vez de estacionarem nos parques dos arredores, ficaram tão deslumbrados com a beleza da cidade que trouxeram as auto-caravanas para o centro, onde provocaram alguns problemas de trânsito…". ). É também oportuno repescar a reportagem do Daniel Oliveira, publicado há anos na Vida Mundial, que ele colocou on-line no Arrastão em Maio.

 

Como estas coisas acabam por andar todas ligadas aproveito a oportunidade para trazer para aqui um texto do Avante, que encontrei através do Der Terrorist, a propósito da passagem de mais um aniversário da construção do Muro de Berlim (e Cenas referiu-se a ele, de passagem, no dia em que nós erguemos o nosso muro privado). Eu ainda consigo espantar-me com o que leio no Avante, sou tão cândida. Um cheirinho:


"(...)Berlim era, pois, a um tempo, canal de hemorragia e via de livre infecção, e isto em plena situação do que se chamou Guerra Fria. Para estancar a hemorragia e travar a infecção foi erguida uma barreira que permitisse controlar entradas e saídas.(...)"

 

*frase roubada ao Rui Bebiano