Quarta-feira, 06.08.08

A gente vai aprendendo coisas. Uma delas é que em Portugal nada é branco ou preto. Há sempre um cinzentinho no meio. Um jeitinho. Hoje, por exemplo, vi isto na televisão: a ASAE vai "aliviar a fiscalização de muitos produtos tradicionais". Desculpem, não percebo. "Aliviar"? A fiscalização vai deixar de ser feita? Ou vai só dar um jeitinho? Se há práticas dos tais "produtos tradicionais" que não se coadunam com os critérios que a dita ASAE está obrigada a fazer cumprir, bom, crie-se um index com os ditos, definindo critérios e tudo o resto, discriminando onde é que a "tradição" colide com a higiene e se envolve ou não riscos. Agora "aliviar"? Em bom português, já sabemos o que quer dizer: fazer vista grossa a tudo o que é badalhoquice. Pelo que vejo, as regras são para aplicar, e com firmeza exemplar, aos restaurantes chineses e pouco mais, sobretudo se houver câmaras de televisão por perto. Mas qualquer mixordeiro, desde que portuguesinho de gema, poderá dizer, amanhã, que os produtos meio podres que tinha no armazém são "tradicionais" porque já o avozinho dele fazia o mesmo, que o óleo rançoso com que frita batatas há seis meses na sua tasca faz parte da "receita tradicional" da sua região e por aí fora.




* e tudo por culpa de um "Vão-se foder com toda a força."




 

Do profano e do sagrado.




Domingo tinha lido a notícia no Público e começaram as comichões, hoje, no "Editorial" (p.34), Nuno Pacheco retoma o tema e avança uma série de objecções que também a mim se puseram. Estou a falar de quê? Da intenção do ME de dar um prémio de 500€ aos melhores alunos de cada escola.

As minhas comichões têm muito a ver, admito, com a minha prática como educadora/mãe. Desde que a minha filha mais velha entrou para a esola que me recuso a premiar bons resultados escolares. A conversa que os dois ouvem desde os 6 anos de idade é sempre a mesma "Vocês têm obrigação de fazer o melhor que conseguirem  e pensem sempre que não sou eu que lucrarei com o vosso sucesso escolar.". Esta "rigidez" de princípios valeu-me, ao longo dos anos, muitas críticas por parte de alguns amigos meus porque, ainda por cima, tenho bons alunos em casa (um dos bichos é, diga-se, um aluno de excepção) e cansei-me de ouvir coisas do estilo "Bolas, que chata que és. Com notas dessas a miúda merecia ser muito apaparicada". A cabrinha, aliás, em tom de gozo também me dizia frequentemente "Azar do caraças. Estou farta de perder dinheiro por te ter como mãe".  Para além desta conversa sobre "lucros" os meus pobres filhos também comeram com grandes prelecções sobre o gozo e o prazer de aprender. E é porque me parece que o que deve ser cultivado em primeiro lugar é este gozo de aprender, sem objectivos "pragmáticos" imediatos que, à partida, me arrepia a atribuição de prémios monetários aos bons alunos. Odiaria ver, e citando o Nuno Pacheco, "a escola (...)reduzida a isto: o conhecimento serve apenas para ganhar dinheiro.".




Acabei de abrir o mail e até me caiu o queixo, o Cenas escreveu-nos (a mim e à Fuckit) uma missiva em que nos trata por "Queridas". O mundo está a acabar e ninguém me avisou?