Domingo, 13.07.08

Ontem passei parte da tarde folheando o Noites Tropicais de Nelson Motta,  "Um relato sem censura dos últimos trinta anos da nossa música – uma das maiores contribuições brasileiras à beleza e alegria do mundo.(...)". Como o autor está profundamente ligado à cena musical brasileira logo a partir de 1960* é muito divertido ver desfilar todos os nomes grandes da música brasileira, as suas pancas, os seus vícios, ao mesmo tempo que nos vai sendo apresentado o contexto em que toda aquela efervescência musical se desenvolvia. Os "anos de chumbo" da ditadura brasileira e da censura estão, naturalmente, presentes. E é um dos episódios ligados à censura - um dos menos pesados, que hoje estou muito levezinha - que me inspirou o Sound Trash de hoje e que surge no meio da descrição da vida do The Frenetic Dancing Days, a discoteca de que Nelson Motta foi proprietário (e que inspirou o título - e não só -  de uma muito popular telenovela que fez sucesso também aqui, em Portugal).  O mote dos "anos Dancing Days" é dado, logo na noite de abertura, quando Rita Lee canta "Arrombou a festa" ("que gozava e sacaneava os grandes personagens da música popular brasileira." p.296), cuja letra, a certa altura, dizia

 

Ai, ai meu Deus

o que foi que aconteceu

com a música popular brasileira?

Todos falam sério, todos eles levam a sério

mas esse sério me parece brincadeira...

 

Adiante... Ora bem, uma das particularidades do Dancing Days era ter empregadas de mesa originais, as Frenéticas que, a meio da noite, largavam as bandejas e subiam ao palco. As sexy Frenéticas rapidamente se tornaram tão populares que se justificou repertório próprio. E é aqui que entra a censura na história. Passo a palavra ao autor «Pensando nelas, escrevi uma letra de música e mandei para Rita Lee e Roberto Carvalo em São Paulo:

 

Eu sei que eu sou

bonita e gostosa

e sei que você

me olha e me quer

eu sou uma fera de pele macia

cuidado, garoto, eu sou perigosa

 

Alguns dias depois, eles mandaram uma fita com a música pronta (...) e uma preciosa contribuição de Rita no final da letra. A que mandei para eles terminava assim:

 

Eu posso te dar um pouco de fogo

eu posso prender você meu escravo

eu faço você feliz e sem medo

eu vou fazer você ficar louco, muito louco, muito louco....

 

E Rita acrescentou, femininamente:

...dentro de mim.

 

(...)mas a Censura jamais aprovaria uma letra assim. Então, quando mandamos o pedido de autorização, só com a letra escrita, colocamos "dentro de mim" não como o último, mas como o primeiro verso da letra:

 

Dentro de mim

eu sei que eu sou

bonita e gostosa

 

Deu certo. "Perigosa" foi liberada e na gravação as frenéticas "esqueceram" de cantar "dentro de mim" na abertura e cantaram todas as outras vezes, até ao final, quando ficavam repetindo "dentro de mim" entre gemidos lúbricos e toda a sorte de sacanagem».(pp.300/3001)

 

*há uma espécie de clic que o fez interessar por música, em 1958, quando tinha 14 anos, e que descreve logo no início do livro

«Eu não gostava de música.

Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e programas humorísticos.

Com 13 anos meus maiores interesses eram literários, esportivos e sexuais. (...)Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi (...) João Gilberto cantando "Chega de Saudade"(...) fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação» (p.9)