Segunda-feira, 07.07.08

Procriar Todo o Dia, Ajuda a Economia.




Desde manhãzinha que, roída pela curiosidade, andava a implorar à júnior que fosse ver as notas dos exames e ela, grande cabra provocadora e sádica, respondia-me "Se estás assim com tanta pressa, ó cusca, vai lá tu". Esperei, esperei até que, num golpe de génio, anunciei "Vou ver as tuas notas mas não penses que ligo a dizer-tas.". Foi num instante enquanto lhe passou a postura sádica...




O meu primeiro grande amor foi uma prostituta. Tratava-se de uma voluptuosa rapariga que atendia pernetas motorizados ao relento e a meio da tarde, pondo-se de joelhos no  colo deles para uma dança sem música. Da sua janela, um miúdo de 12 anos assomou-se pela primeira vez dos abismos da incerteza: perante tal cena, como podia o maior espectáculo do mundo ser o Circo Cardinali? Muitos anos depois, dobradas as esquinas de ruas decadentes, restaurou-se alguma certeza: tem razão o povo quando diz que não volta a haver amor como o primeiro. Quando hoje penso no ofício de prostituta, a sensação é uma estranha mistura de desprezo e compaixão, como se as reacções despertadas pelos advogados de Sílvio Berlusconi e pelas vítimas de trabalho infantil se fundissem numa só. De onde vem isto? Em parte, da ideia de que há algo de precioso -– quase escrevia “sagrado” -– no sexo e que a sua mercantilização é a mais eficaz das diversas formas de o desvirtuar. Acuso um atavismo de catequese, mas socorro-me do insuspeito Lou Reed: “esforço-me por ser tão moderno quanto possível, mas sem me extenuar”.

 

Vivemos à sombra de Salazar, que em 1962 ilegalizou a prostituição. O 25 de Abril apenas produziu aquela caricata greve, em pleno Verão Quente, das trabalhadoras de Cabaret que fizeram piquete a entoar cânticos de punho erguido. No pântano do autismo social onde caem certas actividades ilegais não criminalizáveis, sobrou uma causa laboral órfã, em que ninguém pega a sério (mas circula uma petição): nem os Governos, nem a população, nem sequer a CGTP, que, se tem um fraquinho especial, é por torneiros mecânicos. O vício, constitutivo mas na verdade inconstitucional, é o mesmo que retarda a legitimação das outras causas ditas fracturantes: querer universalizar uma opinião pessoal, maioritária ou minoritária, mesmo que tal implique violar o direito a dispor do corpo como se entender. Ora, eu posso ter ideias românticas, burguesas e convencionais sobre sexo, mas são as minhas ideias, que não devem complicar a vida a quem se pretende prostituir. Legalize-se, obviamente, e não se trata de regressar a 1961. Nos regulamentos da polícia de então, as prostitutas eram “as toleradas” e a legalização visava assegurar o decoro e proteger a saúde pública. O que agora urge assegurar são os meios de impedir o tráfico de pessoas para exploração sexual, bem como outros abusos e armadilhas, comuns nesta actividade.

 

O enquadramento legal do decoro é dispensável. Porque o estigma da prostituição não desapareceria com a sua legalização. Continuaria a ser pouco avisado anunciar a uma ceia de Natal que o bacalhau foi comprado com o dinheiro do cliente da quinta-feira passada. João César das Neves, o beato e catastrofista cronista da nação, talvez emigrasse, mas os efeitos da legalização seriam no restante muito localizados… Hum, infelizmente. Em síntese, como se o espírito de Gabriel Alves me possuísse: trata-se aqui de querer uma sociedade que, sem estimular a vida de puta , não as condene a uma puta de vida.

 

Este texto é uma espécie de “director’s cut” da crónica do Vasco de hoje no Metro. Existem, como poderão constatar, ligeiras alterações em relação ao texto que foi publicados no jornal, alterações essas discutidas e acordadas entre o director do Metro e o autor. (em stereo)