Segunda-feira, 30.06.08

... e de algumas dúvidas colocadas pelo Luís Pedro na caixa de comentários (e, mais tarde, retomadas num post do seu Rabbit's Blog), parece-me importante chamar a atenção do texto do Hugo Mendes, que clarifica a história das comparações feitas por ele no post linkado pelo Vasco. Copio para aqui as conclusões:

 

"- Portugal é o país onde a diferença entre o score modal e score global é a maior: 54 valores (curiosamente, no caso da matemática, a diferença entre o score modal e score global é idêntico = 520 - 466).
- Esta diferença resulta do enorme peso dos alunos 'muito atrasados' (19,7%) e do elevadíssimo valor do coeficiente de atraso (38,9%).
- Reconstruído o ranking a partir dos alunos no ano modal, Portugal passa de 29.º do conjunto de 32 países para 11.º (com o mesmo score da Austrália e da Espanha). Nenhum outro país ganha (ou perde) tantos lugares na passagem de um ranking para o outro.

De uma forma um bocadinho pomposa: os nossos alunos no ano modal estão à porta do top 10 mundial, quando comparados com os alunos dos outros países nas mesmas condições. Não são os melhores do mundo, mas, sim, estão entre os melhores."




E com esta fábula o bom humor parece começar a romper porque já soltei uma (pequena) gargalhada:

 

"Mon adjudant, s’il vous plaît, giflez plutôt mon fils!"




O  Senhor Neves hoje é de antologia. Se estivesse de bom humor era capaz de ironizar mas a noite não foi das mais agradáveis daí que só consiga exclamar "O grau 0 da indigência moral foi atingido".

 

P.S. - Nunca deixará de me divertir, mesmo não estando nos meus dias, a obsessão do senhor com sexo (o que eu dava para passar 5 minutinhos que fossem nos locais mais esconsos e reprimidos daquela cabecinha, ui).




Se vários alunos dizem que o exame nacional de matemática é fácil, não duvido, porque ninguém gosta de mentir para diminuir o seu mérito. Se a Sociedade Portuguesa de Matemática corrobora, acredito, porque tem autoridade. Se o Ministério contesta, assobio para o lado, porque era a sua única reacção possível. Se a ministra se vangloria, zombo dela, porque aqueles testes só permitem escalonar os alunos de um mesmo ano (percentis, sff). Se em relação ao ano transacto houve uma queda brutal nos chumbos, desconfio, porque da esmola farta também o pobre... Enfim, há um problema, mas cantemos hossanas pelo facto de o teorema de Pitágoras ser o mesmo na Brandoa e em Bogotá. Se para a História de Portugal se pode perpetuar uma ilusão de excelência à custa de bricolage ministerial, é fácil comparar os alunos de matemática portugueses com os do resto do mundo.

O PISA (Programme for International Student Assessment) de 2006 testou a matemática de alunos de 15 anos, independentemente do ano escolar que frequentam. A média de 57 países (desenvolvidos e outros) foi ajustada para 500 e Portugal teve um resultado mau (466, posição 37). Mas os dados do PISA mostram outra coisa: ” não houve facilitismo no ensino secundário luso. Os maus alunos chumbaram (o termo técnico é o histriónico “retenção”), porque se contabilizarmos os resultados do PISA apenas para alunos que não perderam anos, a classificação é boa (520). Não se pode pois falar em “nivelamento por baixo” – a escola pública, até 2006, não corrompeu os bons alunos e quem quer liberalizar o ensino não encontra aqui uma arma de arremesso. Quanto aos efeitos das práticas de Lurdes Rodrigues (em funções desde 2005), só o próximo PISA nos esclarecerá.

Fazemos bons alunos, não sabemos é lidar com que vão ficando “retidos”. Que sintamos vergonha disso agora é positivo. Ainda me lembro de um ilustre colunista se gabar de não perceber patavina de matemática e este país nunca foi para Leonardos, mas para intelectuais das humanidades, um sinal de atraso a que se junta o “não tenho jeito para a matemática”, essa definição de talento pela negativa a implicar jeito para não se sabe bem o quê. Nenhum talento se distribui equitativamente pela população, mas as competências mínimas para a matemática estão ao alcance de todos. Se tal exige a quem ensina e a quem aprende um esforço superior ao das disciplinas do empinanço, é um investimento recompensado pelo treino de raciocínio e pelo entendimento acrescido do mundo. Agora e sempre: o Quadrivium dos antigos era matemática vezes 4 (aritmética, geometria astronomia e música). Talvez a solução seja reforçar ainda mais um núcleo básico de saber em detrimento de disciplinas ridículas, como “formação cívica”, investir na qualificação dos professores premiando os melhores e, em vez da lengalenga do rigor, convencer os alunos de que se chega ao prazer pelo esforço. Sou da cultura do ZX Spectrum, mas aposto que aprender ou – melhor ainda – ”descobrir" o caminho para chegar a 5050 (ver título) dá um gozo que supera o de qualquer playstation.

 

Crónica do Metro de hoje adendada com ligações úteis.

 

P.S. meu (a que o Vasco é alheio): recomendo que passem os olhos no Goodnight Moon, o João Caetano tem uma série de posts sobre o tema (os "euLER" e "Literacia ciêntifica em Portugal") que merecem atenção (posts e respectivos comentários)