Segunda-feira, 19.05.08

...para me livrar dos resquícios da adolescência, recomendaram-me uma luva de sisal.




 

A Colóquio/Letras colocou on-line os seus artigos.




... é o título da crónica do Vasco Barreto de hoje no Metro, que aconselho:

 

"Quem está de fora pode ter um melhor ângulo de análise do que quem está por dentro, lapalissada ilustrada pelo Nobel Joseph Brodsky com o exemplo mais luminoso ao alcance de quem não conhece os nossos especialistas em educação: para explicar a loucura, conta mais a opinião do psiquiatra do que a do louco. É apenas por isso que me sinto autorizado a escrever sobre violência doméstica, porque nenhum outro tema me poderia ser menos familiar. Não imagino o que seja viver sob a ameaça permanente de uma tareia, cresci no seio de uma família harmoniosa, pelo que não tenho dessas más recordações de infância, e os traumas domésticos actuais são recorrentes e do tipo craniano, sim, mas invariavelmente por causa do tecto da minha cozinha de mansarda.

Desde o princípio do ano, 18 mulheres foram mortas pelos companheiros, 11 escaparam por sorte e, em 2007, foram registados 22 000 crimes de violência doméstica. Esta é a parte exposta de um iceberg imerso num mar de medo, preconceito e dependência. Cancro? Acidentes de viação? Guerra? Não. Segundo o Conselho da Europa, a principal causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos é a pancada que levam em casa, por ciúme, alcoolismo, tara ou frustração. A ser verdade que uma em cada cinco mulheres é vítima de violência doméstica, basta que 1% do público deste jornal passe os olhos por esta crónica para que hoje 700 dessas vítimas me leiam. Experimento algum desconforto, porque se já dei por mim a imaginar o leitor como vítima, foi apenas por duvidar da qualidade das minhas metáforas. Mas já que chegámos até aqui, exploremos até ao tutano a lapalissada de abertura.

Por defeito profissional, o bastonário da Ordem dos Advogados tem uma visão distorcida quando defende que a violência doméstica, que passou a crime público em 2000, devia deixar de o ser, para permitir que a vítima desista da queixa se assim o entender. Um absurdo. A desistência está assegurada, a essência do crime público é que o início do procedimento criminal não está dependente de queixa da vítima, bastando uma denúncia. Trocado por miúdos, a lei não consagra o ditado “entre marido e mulher não se mete a colher”. E que noção perversa de privacidade nos levaria a fechar os olhos perante sinais óbvios de maus-tratos, só porque o agressor e a vítima vivem juntos? Se o constante aumento das denúncias de violência doméstica traduz – vamos acreditar – uma maior confiança na lei e uma evolução do estatuto da mulher na sociedade, deixemo-nos de saudosismos.

Pela sua condição de vítima, também a leitora pode acusar uma visão distorcida do seu problema. Imagina que não há solução, por temer represálias ainda mais graves, sobre si e aqueles a seu cuidado. Pior, pode pensar que essa é a sua condição. Não é assim. Um bom conselho, não deste cronista mas de quem lida com estes problemas delicados, está aqui: 800202148. A linha da Comissão Para a Cidadania e Igualdade de Género funciona ininterruptamente. A voz que me respondeu há pouco era de uma senhora muito simpática e desliguei logo por vergonha, mas não faça como eu."

 

(podem consultar a edição de hoje em .pdf aqui)