Sexta-feira, 25.04.08
O Portugal de 2008 é melhor do que o Portugal de 1974? É sim senhor. Vive-se melhor? Claro que vive. Mas o que tem o 25 de Abril a ver com isso? Se calhar, muito menos do que a euforia comemoracionista sugere.
A responsabilidade da melhoria não cabe só a um golpe de Estado que há 34 anos, como escreveu o António Pinto Leite (na altura em que ainda escrevia com graça), nasceu numa manhã de Abril “dos amores entre uma velha senhora e um capitão mal pago.”
Se o 25 de Abril não acontecesse, como estaríamos hoje? Provavelmente, não muito diferentes do que estamos. Qualquer outra coisa teria feito o trabalho de nos trazer até cá – outro golpe noutra data, ou qualquer outra forma de o regime desabar e/ou se transformar. Nada nos garante que não pudéssemos estar até melhores - embora, sabendo do que a casa gasta, eu não acredite muito nisso.
Nenhum país vive isolado, e muito menos na Europa ocidental, mesmo que no seu extremo mais periférico. O mundo muda, o mundo mudou, e Portugal teria que mudar com ele, com ou sem 25 de Abril.
Não foi a democracia portuguesa que inventou os computadores, a televisão por satélite, o telemóvel, a Internet, a evolução tecnológica em geral. Nem se imagina que o regime concentracionário português da altura pudesse resistir a tudo isso  – como não resistiu o regime soviético, quinze anos mais tarde. Não se imagina que pudesse também resistir ao movimento de integração europeia, à pressão internacional, ao que quer que acontecesse no resto do mundo, a começar pela Espanha aqui logo à porta. Isto não é a Coreia do Norte.
É legítimo (e desejável) não esquecer o que era Portugal há 35, 40 anos – a miséria, a ausência de liberdade, a guerra em África. Mas o 25 de Abril, mais do que a causa primeira, foi um elo (importante, mas um elo) na cadeia de causas que fez de Portugal aquilo que, bom ou mau, ele é hoje. A maioria delas nem sequer foi da nossa responsabilidade. E se não houvesse 25 de Abril, a cadeia seria emendada por outra coisa qualquer.
Portugal vive melhor hoje porque o mundo (pelo menos a parte do mundo em que Portugal se insere) vive melhor hoje do que há 34 anos. Se o mundo tivesse “piorado” entretanto, Portugal teria piorado com ele. E nenhum 25 de Abril nos salvaria.
Dito isto, lembremo-lo. Não pelo que fez de nós, mas pelo que mostrou de nós. Pelo que representou de coragem de uns e cobardia de outros, pelo que ensina da política, da guerra, da história, da condição humana. Quanto mais não seja (e não há muito mais para ser) os que o fizeram merecem-no.

sinto-me: materialista histórico (!?)



(desde a meia-noite a tentar postar isto... tirando a imagem final, parece-me bem)
sinto-me: revo


"lembrem-se como foi", da Fernanda Câncio, no Cinco Dias

Às vezes apetece-me agarrar em certas pessoas e levá-las numa viagem no tempo. Há filmes para isso, e até séries de TV - do Conta-me como Foi aos domingos na RTP1 à Guerra, o espantoso documento de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que está de novo a ser transmitido pela RTP2. Mas sei que não funcionam. Nem funcionaria, sequer, uma viagem aos anos pré-1974. Se nem a memória funciona para quem os experimentou, como esperar que alguma coisa funcione?(...)





Terminei a série com um excerto de um texto do Alfredo Caldeira sobre os "Murais de Abril". Como terão reparado os que a seguiram houve sempre som a acompanhar as imagens, aqui e agora também não podia falta... um trashzito do dia:
boomp3.com