Sexta-feira, 11.01.08
Quer um seguro automóvel à maneira? Sabe que as companhias on-line são mais vantajosas, certo? Pois bem, eu também sei. E acabo de fazer uma pequena simulação na Ok! Teleseguro. Escolho "simulação online" e desato a introduzir os dados pedidos. Seguro simples, "contra terceiros", sem extras. Resultado, 184,95 euros. Nada mau. Mas ao fechar a página, hesito e decido experimentar outra coisa. Os mesmos dados, iguaizinhos, excepto um: o sexo. Escolho "feminino" e vejo o resultado: 169,36 euros. Confesso que fiquei abananado com a diferença. Aparentemente, há mais mulheres sem acidentes do que homens. Ou então, uma mulher sem acidentes há mais de 6 anos é uma raridade, e portanto deve ser recompensada. Mas reparei que, ao mudar de sexo, o quadro imediatamente assinalou a opção de "upgrade do capital de responsabilidade civil" para 5.000.000 de euros (obrigando-me a desfazê-la para que o resultado pudesse ser comparado). Portanto, concluo que as mulheres batem menos, mas quando batem, oh oh, fazem mais mossa, por isso é melhor aumentar o capital seguro.
Por fim, verifico que há um seguro especial para mulheres, um "ok! mulher". Ora vamos lá a ver. Pois bem, a página define esta modalidade nos seguintes termos: "O OK! Mulher foi feito para facilitar o dia-a-dia das mulheres e a protege-las em qualquer situação ou emergência, 24h/365 dias, à distância de um telefonema". Concluo que os gajos desenrascam-se em tudo, já as gajas precisam de apoio suplementar senão desatam a chorar e a berrar pelo marido, umas histéricas, coitadas. E esta modalidade inclui capital de responsabilidade civil de valor reforçado, protecção jurídica, assistência em viagem TOP, Assistência Vida TOP, Acidentes Pessoais e, ohh finalmente, estava a ver que nunca mais, Assistência Manutenção Auto. E, pelo sim, pelo não, vem já assinalada a opção "upgrade de responsabilidade civil" para 50 milhões de euros. E tudo isto só custa 256,15 euros. Caraças, pá. E ainda se queixam estas gajas, pfff. E sabem porquê? Porque fiz a simulação novamente como gajo, incluindo as opções disponíveis no OK Mulher. Para já, não há assistência em viagem TOP, Assistência Vida TOP ou Assistência Manutenção Auto disponíveis. Só as mulheres é que podem, a gente, não. Sempre gostava se saber o que é o TOP. E depois, o preço final é mais alto do que os 256,15 euros mencionados. Ora bolas.
Adenda: a simulação é muito divertida. Acabo de verificar que o valor a pagar varia consoante a profissão. Por exemplo, um "quadro superior" paga menos 15 euros do que um desempregado e menos 40 euros do que um "operário/ construção civil/ mineiro" ou um "trabalhador por conta própria/ empresário em nome individual". How funny.



O jornaleco que dá pelo nome de Sexta sai hoje (pág. 31) com uma notícia curiosa: o lançamento do novo Tata Nano, produzido na Índia, que irá baixar drasticamente os preços dos automóveis naquele país e causar uma revolução nos hábitos de consumo, no tráfico rodoviário e nos índices de poluição. Aparentemente, será o carro mais barato do mundo. Só que os senhores que escreveram a notícia esqueceram-se de fazer algo de banal e elementar: confirmar os dados. Não são os dados oficiais da firma, as projecções do impacto ambiental ou o consumo de gasolina. Apenas a cotação da rupia indiana. "Tata Nano só vai custar 3600 euros", vem logo no cabeçalho. Quanto é isto? 100 mil rupias. E quanto é 100 mil rupias? 1732 euros, ao câmbio de hoje. É um erro menor, apenas metade do valor anunciado, coisa pouca. O que vale é que a Índia é longe.



Morreu Suharto. Entre um e dois milhões de mortos de compatriotas após a subida ao trono, perdão, poder em 1965, + 200 mil timorenses depois de 1975. Sem nunca ter havido julgamento de coisa nenhuma. De facto, como dizia Estaline, um morto é uma tragédia, um milhão de mortos é uma estatística. Pinochet deve achar que foi discriminado, a esta hora.



... como se fosse um todo uniforme, composto de fanáticos terroristas, barbudos com ar ameaçador. Mas, se calhar e por isso mesmo, convinha dar relevo a esta notícia «Depois de oito anos de discussões, foi ontem assinada, em Bruxelas, uma Carta dos Muçulmanos na Europa, em que 400 associações - apenas sunitas e não xittas -, provenientes de todos os países da UE e da Rússia, defendem um "islão europeu, laico, pragmático e integrado".» (Público, p. 23). Presumo que este seja o texto da referida Carta.



Ser mãe (ou pai, para o caso, como para quase todos, é irrelevante) é... receber uma sms da filha que reza o seguinte "O que é a merda da Lei de Le Chapelier?" e ficar matutante. Sei que não tem teste de história por isso a informação que eventualmente lhe faculte não servirá para "fazer batota". Mas e se fosse dia de teste e o estivesse a fazer? O meu sentido de justiça teria maior ou menor peso que o amor maternal, hum?

Adenda para curiosos: eis a Lei de Le Chapelier




Os serviços alfandegários japoneses resolveram interceptar o Catálogo da Exposição da Biblioteca Nacional Francesa, Eros au Secret, que um cidadão japonês tinha encomendado. Depois de chamado à alfândega foi informado que o livro estava interdito de entrar no país por conter ilustrações pornográficas. O funcionário, num acto magnânimo naturalmente, lá condescendeu e deixou a obra passar depois de, diligentemente, ter coberto de tinta negra as fotos acima ("Je me suis aperçu qu’on a noirci, pages 256 et 257, une photo du sexe d’une dame célèbre, puisqu’il a permis à Gustave Courbet de réaliser son tableau 'L’Origine du monde', aujourd’hui au musée d’Orsay…"). Esta merda no Japão! No Japão, porra?? Acho que está na hora de aparecerem por aqui mais uma pucarias japonesas, está visto.
Ainda tentei dar o desconto ao ataque de moralidade japonês invocando aquela minha convicção eurocentrica de que por aquelas longitudes não batem com o baralho da mesma forma que nós, mas eis que, na mesma notícia, me dão conta que por terras de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra também há coisas muito bizarras a acontecerem "(...) Le même Slocombe se souvient d’être arrivé il y a quelque temps à Waterloo Station à bord de l’Eurostar, avec dans son sac des BD mangas érotiques, vendues en librairie en France: "La douane volante britannqiue m’a saisi les livres. Après des palabres, on les a mis sous cellophane et promis de me les rendre à ma sortie du Royaume-Uni. Mais pas question qu’ils y entrent. Les BD m’ont été rendues à mon retour vers la France…". Logo de seguida o dono das BD avança com uma explicação - quase tão lúcida e racional como a do meu eurocentrismo - "Maintenant que j’y songe, la Grande-Bretagne est une île comme le Japon. Ceci explique peut-être cela…".
Quase dá vontade de se dar vivas à Arábia Saudita (eu não disse isto, ok?), ao menos aí podem dizer com toda a propriedade "Não estamos cá para enganar ninguém".



Ecce facto. A decisão está tomada. Primeiro era porque não havia decisão, depois era porque se apontava a solução mais cara, depois era porque o assunto estava mal estudado. Agora já foi tudo esmiuçado e a decisão está tomada. Lá vem a catadupa de veneno. Se o Lino escolhesse a Ota, era acusado de inflexibilidade, de teimosia e de burrice pura. Escolheu Alcochete, acusam-no de virar a casaca, de estar "fragilizado", de ceder a pressões e de não ter palavra. Há oito meses rebentou o disparate por causa do deserto. Agora é o inverso. Agora oiço, por exemplo, a deputada dos Verdes, dizer que "o ministro disse que fazer o aeroporto na Margem Sul, jamais". Olhe que não, dra, olhe que não, oiça lá a frase completa e repare no contexto em que foi dita. Ontem ouvi o ministro que, repito, "não me suscita especial simpatia, pelo contrário", na RTP-1 e pareceu-me sensato. Fica-me, sim, o sorriso pelas anteriores palavras não do ministro a defender a Ota, mas de Almeida Santos a avisar o país sobre o risco que era fazer um aeroporto na Margem Sul por causa dos atentados terroristas na ponte. Será talvez por causa disso que o governo decidiu fazer mais uma, pá, dinamitar 3 pontes é coisa difícil.
Mas a medalha de ouro vai para Miguel Beleza, ontem, na SIC-Notícias. Um primor. A sério. Desconhecia a ironia e o sentido de humor do personagem, que reputava de cinzento e apático. Pelo contrário, disse várias refinadas, sempre com aquela cara de pau que lhe é característica. Por exemplo, "Portugal foi premiado pelo World Wildlife Research Center [ou lá o que o valha] por contribuir para a preservação de espécies em vias de extinção, nomeadamente o elefante branco". E apontou o Alqueva e os estádios do Euro 2004. Touché. Nem mais. Pouco depois, divergiu para a velha questão da reforma da administração pública e a sua progressiva engorda desde há vários anos. E alguém de um governo anterior (não percebi quem) que lhe disse que "as admissões estavam congeladas". Pausa. Depois concluiu: "cheguei à conclusão de que foi o aquecimento global que estragou tudo, estava tudo congelado mas por causa do mesmo, descongelou-se". Até o Mário Crespo se riu.
Hoje ouvi comentários delirantes por causa da designação. Parece que "Ota" era um nome mais atractivo para a promoção turística internacional do novo aeroporto. "Alcochete" é mais difícil. Fica aqui a minha sugestão. Podem até criar um logotipo com um cochetezinho com asas. Talvez o Irmão Lúcia queira adiantar-se e fazer já uma proposta.



Hoje volto à francofonia para marcar o fim da saison dela em minha casa.


P.S. - Pedi tréguas, não me rendi, 'tá bem, ó criatura?