Quinta-feira, 10.01.08
A Petição para a criação de salas de fumo nos aeroportos. Não se está a pedir o impossível nem, tão pouco, a negar os direitos de quem quer que seja. A não serem criadas suspeito que os wc cumprirão essa função e... azarucho para os chichizinhos dos não fumadores (há que ser honesto).



... mas o destilamento de fel do Cenas aqui abaixo pôs-me a trautear isto.



Explicação privada e parabéns (uma vez mais) atrasados a quem de direito.




A História, já cá se sabia, é a puta mais deslavada e maltratada de que há memória, de quem toda a gente se serve e que ninguém respeita nem paga o devido preço pelo uso e, quantas vezes, abuso. Não sei se por vocação, se por necessidade, se por simples acaso dela mesma. Mas a verdade é essa. Por cá, sempre existiu uma relação muito complicada, complexada e mesquinha entre os portugueses e a dita senhora. Abusada em privado, mas a quem se tecem os maiores elogios em público. Enaltecida exteriormente, mas desprezada no íntimo. Uma das formas de abuso mais comum e mais apreciada é a recorrência ao uso de pequenas historietas para colmatar traumas pessoais, rancores locais, mazelas nacionais. Merecia um estudo psiquiátrico aprofundado, só vos digo. Um dia destes conto a anedota do "orgulho do anão". Ah! Não é preciso, está contada num blog (cuja autoria permanece um mistério) já defunto, aqui.
Hoje assisti ao regresso de mais um episódio na longa tradição da mesquinhez histórica nacional. Que deve ficar para durar durante uns tempos, mais um fogacho a alimentar o luso ego que, temo, irá permitir mais uma discussãozinha idiota, mais uns milhares de exemplares do 24 Horas vendidos e mais uma barrelazinha na ignorância nacional.
Falo do novo filme de Manoel de Oliveira, chamado, delicada e subtilmente, Cristóvão Colombo - O Enigma. Aparentemente, o decano deixou-se inebriar pelos fumos do egocentrismo nacional enxertados em saudade, produzidos por aquele personagem chamado Manuel Luciano da Silva, luso-emigrado nos States, médico de profissão e historiador por vocação e apelo da raça nacional. Em cima podem ver um retrato do cavalheiro, em traje de gala. Há décadas que escreve balelas sobre os Clark Kents que eram os portugueses do século XV, o disparate da Pedra de Dighton e outras quantas maravilhas do imaginário bimbo-marialva nacional. Porém, o alvo preferido deste e de outros personagens histórico-panteístas portugueses sempre foi Cristóvão Colombo, que já deve estar tonto de tanta volta no túmulo à conta das provas incontestáveis de como gostava era de bacalhau e de tinto do Cartaxo e não, nunca, de pizza e de Barolo.
As teses sobre o Colombo Português têm barbas brancas do tamanho do mundo. Há uns 15 anos, o cabalista Mascarenhas Barreto repegou ideias velhas e deu-lhes uma pseudo-leitura cabalística que, embora delirante e pejada de erros, deu brado e correu mundo, em plena época de furor cavaquista e de comemorações dos Descobrimentos. Hoje, no rescaldo do Tratado de Lisboa e sob a égide da desorientação nacional em tempos de globalização, eis que regressam à ribalta, requentadas e pela mão do mais famoso cineasta nacional. Em duas penadas: Colombo era na realidade um tal Salvador Fernandes Zarco, alentejano de gema e de sangue real, que aceitou estoicamente e a bem da Nação a missão de espionagem que lhe destinou D. João II (rei clarividente, visionário genial, um quase Demiurgo na terra dos afonsinhos) que consistia em desviar os malvados espanhóis da Índia que então se buscava, apontando para oeste, onde por cá já se sabia existir um enorme continente desconhecido. Já estou a imaginar as polémicas para fazer vender papel e encher espaços hertzianos.
Hoje ouvi declarações de Manoel de Oliveira, muito intrigado com o maior "mistério", segundo as suas palavras: Cuba. "Não há mais nenhuma Cuba no mundo", a não ser a ilha e a vila alentejana. Conclusão, o português Colombo, num raro momento de fraqueza e de saudade, terá baptizado a ilha com o nome da sua terra natal. Simplesmente genial. Que a ilha tenha sido baptizada, na realidade, com o nome de Juana, em homenagem à filha dos Reis Católicos e que a designação posterior de "Cuba" derive de uma expressão local (sim, porque as criaturas que lá viviam eram humanas e falavam e tudo), são pormenores desprezíveis. O que interessa é o enigma, mesmo que não seja enigma nenhum.
Credo. Já me preparo para ouvir outra vez as trapalhadas cabalísticas sobre a assinatura do gajo e afagamentos ao ego colectivo em como éramos bons nessa altura, os melhores do mundo, pá. E depois virá algum desmancha-prazeres, sei lá, um qualquer Vasco Pulido Valente rezingão falar da decadência que se seguiu, sempre a descer, até chegarmos a isto.
(A quem quiser ler alguma coisa sobre o assunto, recomendo vivamente o comunista, ateu e vendido à Máfia Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, Ed. Caminho, 1991, cap. X).





Através do Rui Bebiano cheguei a um site, em língua portuguesa, sobre Beauvoir (carregar na imagem) que merece atenção. Nele é possível encontrar, entre outras coisas, a tradução da entrevista que lhe foi feita por Gerassi que referi ontem. Para além deste carácter utilitário e pragmático o "Segundo plano" de Rui Bebiano merece uma leitura atenta... por parte, em primeiro lugar, das "mulheres de esquerda"? A auto-observação e a auto-crítica são exercícios úteis apesar de, na maior parte dos casos, dolorosos.



What If We Banned Polling?


Se não durmo pelo menos oito horas sou um homem perdido, e tinha que me levantar às sete...Já eram duas da manhã e eles não se iam embora, refastelados nos maples, felizes. E Deus sabe que só os convidei para jantar por não poder evitá-lo. Palravam como papagaios, cacarejavam sem fim, relançando constantemente a conversa, transformando-a numa algarviada, falando a torto e a direito de coisas inúteis. E eu tinha que servir cognac e mais café. De súbito, ela lembrou-se que mais tarde poderíamos comer uma sopa de alho. (A minha cozinheira tem muita fama.) Eu não podia mais. Convidei-os para jantar porque não podia deixar de o fazer, porque sou bem-educado. Haviam chegado mais ou menos às nove e meia, já eram duas e não pareciam nada dispostos a irem-se embora. Não conseguia tirar da cabeça o relógio da sala, porque não podia olhar para ele, pois acima de tudo sou bem educado. Tinha que me levantar às sete e se não durmo, pelo menos oito horas, torno-me num frangalho, durante todo o dia. Ainda por cima a conversa deles não me interessava nem um bocadinho. É verdade que poderia ter tomado uma atitude grosseira e, de uma maneira ou de outra, pô-los na rua. Mas não está no meu feitio. A minha mãe, que enviuvou muito cedo, incutiu-me os melhores princípios. Só um desejo: dormir. Para o resto estava-me nas tintas. No entanto não tinha sono, pensava era no que teria de manhãzinha... A minha educação impedia-me de simular esses bocajos que são o expediente habitual das pessoas ordinárias. E isto para aqui e aquilo para ali... e assim e assado.
O gin-rummy, o xadrez, o poker... Ginger Rogers, Lana Turner, Dolores del Rio (detesto cinema). No sábado em Cuernavaca (detesto Cuernavaca). Ah! A casa de Acapulco (nesse momento até detestava Acapulco) e Beltrano perdia e voltava a perder.
E você que acha? E você, e você, e você... E o Presidente, e o ministro, e a ópera (detesto ópera). E o cashmere inglês, Don Pedro, e a relva, as couves...
E esse veneno tão parecido com conhaque.

Um dos contos dos Crimes Exemplares de Max Aub, uma delícia de humor negro bem sádico...supostamente uma recolha de relatos de assassinos que apresentam os seus motivos (justificações? :-)) para o crime.

Descobri que existem disponíveis no Youtube alguns dos "contos" porque serviram de base ao filme, de Rita Nunes, Menos Nove. Quando o li também gostei muito deste:


nota muito pessoal para os meus amigos: será isto uma ameaça? ass. Shyznogud aka Antevéspera