Quinta-feira, 31.01.08
As minhas refinadas e humildes desculpas pela ausência dos últimos dias. Não é que a chafarica tenha ficado em más mãos, muito pelo contrário. Mas é que dá-me sempre uma dor na alma deixar este blog, ainda que seja por pouco tempo.
Os motivos para a minha abstinência foram, contudo, perfeitamente justificados, como em seguida descrevo. Na verdade, não é todos os dias que se vê o nosso esboço a carvão nos noticiários internacionais, nas capas dos tablóides e nas parangonas dos motores de busca. Uma celebridade, a fama e a glória, não fossem alguns pormenores desagradáveis.
O primeiro é que esqueceram-se do sinal que tenho na bochecha esquerda. Do qual muito me orgulho. Quase tanto como do ar latino, norte-africano ou mediterrânico. O tal que quase me desmascarou, que porra. Se fosse branquinho, loiro e de olhos azuis, nunca dariam comigo. Mas isso seria uma impossibilidade ontológica: homens desses pura e simplesmente não raptam crianças. Nem lhes fazem mal. Nunca. Isso está reservado a homens com o meu facies.
O segundo é que me chamam de "beast" nas primeiras páginas de alguns jornais. É uma injustiça. Mas compreensível, no final de contas, porque o Algarve, o Sul da Europa, o Mediterrâneo está cheio de beasts como a do esboço, tipos de cabelo e olhos escuros. É, afinal, a terra dos beasts, onde os seres humanos (v.g. os loiros do Norte) gostam de passar férias, é uma espécie de zoo para eles. Só que desta vez tiveram azar, porque um dos macacos escapou da jaula e roubou-lhes o rebento.
O terceiro são as insinuações torpes de que eu teria molestado a criança. É mentira. É injusto. Na verdade, não sei bem o que farei com ela. Estou ainda em busca de inspiração. Noutros tempos, quando me chamavam de velho do saco, eu limitava-me a levá-las para longe. Depois, começaram a chamar-me de papão e, sim, confesso, devorava mesmo os petizes. A certa altura decidi gozar um bocado e permiti-me uma variação, ou seja, comia-as ao pequeno-almoço, numa altura em que comunista era um rótulo em voga. Agora não sei, hesito. Alguém tem uma sugestão?
Por fim, o quarto prende-se com a pouca simpatia com que fizeram o snapshot. Acordei mal-disposto naquele dia, não tinha ben-u-rons em casa e a mulher-a-dias não me lavara a roupa decentemente. Nem tinha desodorizante e fui obrigado a sair com cheiro a sovaco. O rapto foi, portanto, realizado com grande desconforto. Deviam ser mais condescendentes e favorecer-me um pouco mais no esquiço. Afinal, se concedem o benefício da dúvida aos pais da Maddie, mau-grado a PJ estar mais do que convencida da sua culpa no cartório, porque não fazer o favorzinho, insignificante, de me pentear um pouquinho mais no retrato?




... tu que és antigo não terás, nas prateleiras ou nos tais 7 caixotes, um exemplar da bd de que se fala hoje no Público, a Wanya - Escala em Orongo? Fiquei aguadita a ler o artigo. Ah! Descobri que existe um blog de homenagem a Nelson Dias, o autor.

"Bem vindo ao blog dedicado à banda desenhada de Nelson Dias, Wanya, com texto de Augusto Mota. Editada pela primeira vez em 1973, este album de figuração narrativa é considerada pelos críticos da especialidade como uma obra de referência. Aqui apresentaremos, para além de trabalho do autor, textos dedicados ao tema Wanya, entrevistas e tudo o que se possa de alguma maneira ligar com o tema e com a banda desenhada em geral."





O canal das eleições espanholas no youtube está aqui


Na casa do lado hoje resolvi falar "da democracia" e "do membro viril".







Quarta-feira, 30.01.08
A pedido de variadíssimas famílias, e prestando um serviço público que esta espelunca também tem o dever de cumprir, aqui deixamos a receita de queques de chocolate que o mundo tanto aguarda:

- 350 g de chocolate negro (nada de ajavardar, que tem de ser do bom. Há uns com 70% de cacau).
- 150 g de açúcar fino.
- 4 ovos.
- 50 g de farinha sem fermento.
- 50g de manteiga.
- Uma pitada de sal.

Untar as formas. Derreter o chocolate em banho-maria e deixar arrefecer um pouco.
Bater a manteiga com o açúcar e acrescentar um ovo de cada vez, batendo muito bem entre cada ovo (com a batedeira. Ninguém é obrigado a trabalhos forçados).
Juntar a pitada de sal (muito pouco) e, seguidamente, envolver a farinha peneirada. (Não bater! Envolver com a colher de pau! - sim, de pau, e que se foda a ASAE).

A seguir: juntar o chocolate, envolvendo com a dita colher.
Verter para as formas e levar ao forno, que já deve estar aquecido a 200º. E deixar cozer durante 10 a 12 minutos.

Nota: devem comer-se sobre o quente, acompanhados com uma colherinha de natas pouco açucaradas, ou com gelado das mesmas - entre outras variantes igualmente pecaminosas.

Agora alambazem-se.

Ass: Junu e Mouro da Linha



"Democratic candidate John Edwards has decided to drop out of the presidential primary race, giving a speech this afternoon at the same place where he began this campaign — in New Orleans."



Às 2 da manhã sentei-me, desanimado, olhando a sala num caos. Atrás de mim, Jorge Luís Borges discutia com o chefe dos bombeiros de Bradbury. Quase me apetecia dar razão a este e queimar todas aquelas arrobas de papel. Nunca irei reler – ou simplesmente ler – grande parte. Então porque é que me dou a este trabalho insano de os arrumar? Porque sim. Porque estão ali e quero que estejam. Porque gosto de os ver. Porque eles me falam, mesmo que nunca mais os abra.

E porque é que o trabalho é insano? Porque eu os arrumo como quem escreve uma história, ou um poema. Ali, os romances. Acolá, a História. Acoli a “queirosiana”, e pegada a ela a ficção portuguesa. Há uns metros de poesia, e uma catrefada de assuntos contemporâneos. A História subdivide-se: não vou pôr a Idade Média junto da II Guerra Mundial, nem os gregos misturados com a guerra da Secessão. Há um escaninho para as patetadas esotéricas: não vou deitar fora a colecção “negra” da Bertrand, recheada de antepassados extraterrestres e de relações entre os nazis e os Maias, com os celtas a servirem de pau para toda a obra. Sinto uma certa ternura - eu devorei aquilo em tempos, achando que se não era vero, era bene trovato. Depois há a FC toda e a estimabilíssima Argonauta com cerca de três metros. Depois há a arte e a música, que aqui e ali se interpenetram
Parece fácil. Mas, e aqueles que não se sabe bem onde pertencem? Onde vou pôr Julius Evola? Ao pé de Hitler, de Platão ou dos esotéricos? Às tantas ele aparece misturado com a malta de esquerda. Se muita gente soubesse ao lado de quem a coloco, dava-lhe uma coisinha má. E logo ali começa a história das religiões – com a espiritualidade do Islão a misturar-se com a crónica dos Taliban. Como é que eu vou ordenar tudo isto, numa progressão lenta de um assunto para outro, como um jogo de dominó? Uma prateleira começa em Aquilino e acaba em Pedro Paixão. Outra vai da guerra na Bósnia à história do Império Otomano - tem ou não tem lógica? Aqui é capaz de ter. Mas há outras lógicas que são muito minhas e que nem me dou ao trabalho de entender, muito menos explicar.
Como vou resolver as intersecções de temas, as faltas de espaço para um assunto aqui e o espaço que sobra para outro, ali? Vou preencher vazios junto de Aristóteles com os Peanuts e Milo Manara?

Às 3 da manhã apaguei a luz e fui dormir, exausto. Sonhei que metia tudo o que era de meu numa mochila e partia para a Patagónia. Acordei a pensar onde ia arrumar Bruce Chatwin: na literatura de viagens ou na literatura estrangeira em geral?
A vida é tão difícil...



Há um ano (feito na noite/madrugada passada) os emigrantes - representados pelo André Belo, pelo Vasco M. Barreto e pelo Ivan Nunes - foram responsáveis por uma troca mailística alucinante entre vários bloguistas nacionais carregados de adrenalina. Relembro e presto homenagem a essa figura tão portuguesa com o tema musical que se impõe.





Tigres à solta ao pé de casa dos pais criam-nos, mesmo que só momentaneamente (até acordarmos de vez e pensarmos "Não seja parva, criatura"), algumas angústias.



Terça-feira, 29.01.08
Relembrando velhas conversas. Assim que vi, no meu mail, a forma como a Slate publicitava o artigo - Why Are There So Many Hot Russian Tennis Players?- senti uma compulsão a invadir-me e tive que to vir logo recomendar, Vasco.



... porque é que sou tão pavloviana e tenho uma grafonola (de qualidade duvidosa) ligada às sinapses? Basta ouvir alguém falar em acordar para ter logo vontade de lhe chamar Susie e não deixar de trautear isto:




... ou seja no blog do João Pinto e Castro. O vídeo que ele colocou on-line está directamente ligado a polémicas surgidas a propósito do espectáculo de cujo cartaz falei há uns dias.



Também eu, à semelhança do João Pinto e Castro, fiquei com ar de parva (bem, eu fiquei, ele não sei, mas percebem a ideia, não percebem?) a olhar para as gordas de uma das notícias do Público de ontem, pensei logo em inflações, revisões em alta e esse tipo de palavreado. "Queres ver que esta resolveu dedicar-se a esmiuçar o noticiário económico? Para o que lhe havia de dar", estarão vossas exas a pensar. Desenganem-se... a notícia era sobre a morte de Suharto. "Violações aos direitos humanos e milhares de mortos" lia-se no jornal e o João escreve, e muito bem, "("Milhares de mortos" é, definitivamente, o eufemismo do dia.)".
Ora, por falar em mortes directamente ligadas a Suharto, veja-se este gráfico demográfico de Timor e aprecie-se a clareza com que mostra os efeitos de certos acontecimentos políticos no país.


Descobri-o num comentário a um post de PPM no blogue atlântico, o homem que se costuma encanitar todo com "mas" alheios (isto é só um entre inúmeros exemplos) e que, contudo, termina o referido post com esta singela frase "Claro que o ditador Suharto era abominável, mas convém recordar que não foi o único.".

(em estereofonia)

Adenda confessional a propósito de "mas": não consigo falar em conjunções sem que que me venham logo à cabeça as kinky, tão bem descritas no poema da minha infância , “...E, nem, não só, mas também…conjunções copulativas“.



Segunda-feira, 28.01.08
Tinha que ser uma canção de embalar crioula (crioula do Haiti, eu sei, mas foi a que consegui arranjar com o "espírito" que queria).