Adormeci em dúvida e acordei em indecisão. Mas a conclusão é insofismável: Portugal é um país de ignorantes. Todos, a começar pelos deputados e a acabar nos jornalistas. Não serão bem ignorantes, serão mais precipitados, apressados e, sobretudo, gente de má-fé. A questão é a seguinte: quem, pelo amor das avózinhas deles, disse que o ministro Manuel Pinho estava a mostrar dois cornos ao líder da bancada do PCP? Pensar isto, assim sem reflectir, é ver um insulto em todos os gestos de terceiros com que nos deparamos a cada instante. Não admira que haja para aí muito azedume, muito rancor, muita mágoa equívoca.
Dois dedinhos assim são dois cornos? Porquê, digo eu? Não podem ser duas antenas? Dois apêndices? Os caracóis têm-nas, alguns insectos também. Pode até ser um sinal de excelência cognitiva, como se via nas imagens dos extra-terrestres de outros tempos, que nunca tiveram fama de estúpidos, antes pelo contrário. Ou podem ser duas orelhas alçadas, como um vigilante animal de caça. Não percebo porque é que toda a gente assumiu que eram dois cornos. Poderia dizer que encornaram com aquilo. Alguém perguntou ao ministro o que queria ele dizer? Alguém quis saber?
E mesmo que fossem dois cornos, bom, alguém que os coloca na sua própria cabeça está a assumir a condição bestial (bovina, demoníaca ou outra) para si próprio. O menino do PCP mais o menino do BE, se fossem bons jogadores e tivessem sentido de humor, teriam clamado "Olé!" alto e bom som, para toda a câmara se rir, ou teriam dado uma indirecta dizendo "pode marrar, senhor ministro, que a gente aguenta". O ambiente distendia, a tensão esvaía-se e a discussão prosseguia, agora mais bem-disposta.
Mas não. Em vez disso, invocaram-se logo argumentos muuuui zelosos sobre conduta indigna e coisas assim, e mais a dignidade do hemiciclo e o raio que os parta. E exigências de pedidos de desculpa aos deputados e, pasme-se, "ao país" (sim, esta ouvi eu). Por mim, não preciso que ninguém me peça desculpa pelo gesto que o ministro fez ao deputado. Haverá outras, sim, muitas desculpas por muitas outras coisas, mas isso, pelos vistos, não importa. Como se a dignidade de um eleito pela nação não se medisse na honestidade, no trabalho esforçado, no cumprimento do dever e na procura do bem comum. Não. Mede-se é nisto, já o resto, tudo se perdoa. O cavalheiro já está demitido e a pensar nas suas "belíssimas férias", o país debate e faz análises freudo-maxweberianas sobre o efeito político, as avalanches eleitorais, a semiótica do raio que os partisse, da coisa. Os politólogos e comentadores exultam, já têm matéria-prima para mais umas análises profundíssimas.Ora a merda, se fossem mas é "dar brilho ao cágado", como dizia um.
